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02/11/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Missão cumprida

Ele esperava abrir o sinal, totalmente distraído, às seis e meia da tarde, quando uma moça cruzou à sua frente, pela faixa de segurança, um arquivo apertado contra o peito, em direção à parada do ônibus.

“Trabalha como balconista numa farmácia e vai para a faculdade de letras na PUC”, pensou ele.

Ela era bonitinha, rosto e corpo bem feitos, altura mediana, nada de chamar a atenção, igual a milhares. Sem pensar, ele abriu o vidro automático do carro e, quando ela passou ao seu lado, disse:

–        Moça, por gentileza?

–        Pois não?

–        Posso lhe pedir um favor?

–        Depende…

–        Queria te oferecer uma carona. Apenas isso. Não importa aonde você vai, por favor, eu gostaria muito de te levar.

Ela ficou em silêncio alguns segundos, olhou para ele, para o carro dele e num impulso juvenil concordou:

–        Tudo bem. Vou para a PUC.

Ele vinha do trabalho para casa, enfurnado nos cuidados com o trânsito, como era seu costume fazer diariamente, naquele horário. O rádio estava ligado num programa de esportes que ele mal ouvia, naquele dia em especial pensava em coisas vagas tais como falta de motivação, velhice chegando, repetição, dia-a-dia, falta de alternativas, vida sem graça e conformismo. Aos quarenta e cinco anos de idade sentia-se terminado e terminal, como alguém que cumpriu a missão e podia se aposentar, passar os dias nas praças, nos parques, em casa, usufruindo do nada que havia construído para si mesmo.

A garota entrou no carro e depositou castamente o arquivo sobre os joelhos, movendo a cabeça num gesto nervoso que farfalhou seus cabelos negros.

–        Muito prazer, X, – disse ele estendendo a mão.

–        Igualmente, Y, – respondeu ela apertando a mão dele.

–        Estudas na PUC?

–        Sim, faço faculdade de Turismo e Hotelaria.

–        Que legal. Trabalhas numa farmácia?

–        Não, de onde você tirou essa idéia? Trabalho numa loja de roupas. Sou balconista.

–        Que legal. Não sei porque, achei que você trabalhava numa farmácia. É bom o teu emprego?

–        Mais ou menos… salário mínimo mais comissão, sabe como é… mas eu gosto. Conheço muitas pessoas novas.

–        Que legal. E do curso, você também gosta?

–        Adoro. Meu sonho é ser guia de crianças na Disney. Adoro criança.

–        Que legal. Eu também gosto mas às vezes não tenho paciência.

–        Sei como é, com criança a gente tem que ter muiiiiita paciência. Eu tenho. Adoro brincar com meus sobrinhos, filhos da minha irmã.

–        Que legal. Quantos sobrinhos você tem?

–        Dois, um menino e uma menina, são uns amores, umas gracinhas, tenho paixão por eles. Quando chego lá eles correm e se atiram em cima de mim, a gente rola pelo chão. Adoro.

–        Que legal. E você, não tem filhos?

–        Eu? Nem pensar, pelo menos até o fim da faculdade.

–        Que legal. Mas tem namorado, né?

–        Namorado, namorado, não. Nada fixo.

–        Uma garota bonita como você… não deve faltar candidato…

–        Tem que dobrar na próxima à direita senão você vai ter que fazer uma volta enorme…

–        Ah é, desculpe, isso mesmo, dobro à direita, vou até o fim da rua e depois à esquerda, não se preocupe.

–        Não estou preocupada, só queria saber por que tanta gentileza, por que o senhor me ofereceu carona?

–        Por favor, tira o senhor, tá? Me chama de X que está mais do que bom. Sei lá por que. Eu estava distraído, você passou, quando vi tinha chamado você. Nenhuma razão em especial, vai ver eu queria conversar, deve ser isso.

–        Você não tem com quem conversar? Não tem família?

–        Claro que sim, sou casado, tenho filhos, é que… vinha ali, meio à deriva, de saco cheio com a vida sabe como é? Se eu tivesse pensado não tinha falado com você. Foi um impulso, só isso.

–        Ah….

–        Você nunca teve vontade de fazer uma coisa louca, fora de órbita, um lance diferente?

–        Claro que sim mas nunca isso, de falar com um desconhecido…

–        Pois é…

–        Pode me deixar ali no portão. Não precisa entrar, eu caminho até o meu prédio, não é muito longe.

–        Tudo bem. Muito obrigado por aceitar minha carona. Foi muito bom conversar com você.

–        Imagina, nesta hora eu ia estar sacolejando dentro de um ônibus. Eu é que agradeço.

–        Tudo bem. Felicidades para você.

–        Igualmente. Se cuida, tá?

Ele ficou observando a moça, com o arquivo apertado contra o peito, entrando pelo portão principal da PUC e sumindo entre milhares de outros alunos que caminhavam rumo às suas aulas.

Acelerou o carro, deu à volta e retomou o rumo de sua casa sentindo uma gostosa leveza. No dia seguinte, esperando encontrar novamente a garota, calculou o tempo para estar às seis e meia na mesma sinaleira e ela não apareceu.

Durante alguns dias planejou ir até o curso de Turismo e Hotelaria da PUC e procurar por ela e, na última hora, desistiu.

Uma semana passou e não pensou mais nela.

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