Saltar para o conteúdo
05/10/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Mais desígnios da paixão

Paixão é coisa traiçoeira que domina você de repente, sem dar tempo para suas defesas entrarem em ação.

Um simples olhar, um aperto de mão, uma frase dita ao acaso e lá está você, a mercê de uma emoção que vai controlar sua vida, gerar expectativas, fabricar sonhos e, como é inevitável, encher você de medo.

A paixão tira a sua naturalidade e aquilo que você diria normalmente adquire forte carga de significado e tudo o que você ouviria normalmente passa a ser correspondência, porque o apaixonado deseja, mais do que qualquer outra coisa, que o objeto de sua paixão esteja também apaixonado.

As paixões proibidas são as de melhor qualidade, uma espécie de lei seca que faz com que aquele que nunca ingeriu bebida alcoólica beba, pelo simples prazer de transgredir.

O que é paixão proibida? É quando você se apaixona por quem não deveria, no dizer da moral religiosa predominante.

É quando você se apaixona pela mulher ou pelo marido de um amigo, de uma amiga. É quando você se apaixona pela freira ou pelo padre, pela mulher bem mais jovem, pelo homem bem mais velho, por uma tia ou um cunhado.

É quando você sabe que, se realizar a paixão, vai provocar sofrimento, rupturas, é quando você tem certeza que realizar tal paixão vai mudar sua vida de modo definitivo e irrevogável.

E é justamente essa paixão que você mais deseja, com a qual você sonha mas nunca tem coragem de admitir nem de permitir porque você não quer se complicar, você que organizou sua vida e está contente com ela, disposto a encerrar seu ciclo usufruindo as conquistas afetivas e, ai de mim, morrer em paz.

Porém, por mais que tenha construído essa imagem, você não é de ferro, seu coração bate forte e sua respiração, às vezes, se acelera por isto ou aquilo, nem que seja um gol do seu time no último segundo da prorrogação.

A paixão faz você sofrer, prezado telespectador, por causa do medo, da dúvida, da incerteza e, sobre todas as coisas, acima do mais elevado pico gelado do Everest, de revelar-se e mostrar-se ridiculamente ao mundo como alguém mínimo, um reles mau caráter que não respeita ninguém, o passado e seus princípios.

O que fazer com a paixão, senhor apaixonado? Como lidar com ela? Como revelar seu sentimento, sua nuclear e atômica emoção, sem correr o risco do linchamento público?

Honestamente, não sei.

Acho que precisa contar com a sorte, que a pessoa por quem você se apaixonou seja sensível e compreensiva, que trate de corresponder à sua paixão ou, caso contrário, entenda o que você sinta e mantenha a revelação no limite de vocês dois, tratando de perdoar a ousadia e poupar você da degradação pública.

O grande drama do apaixonado é que ele vive de indícios, de demonstrações casuais que, para ele, assumem significados sublimes: um olhar mais demorado, um aperto de mão prolongado, um gesto de carinho sutil, como cruzar os dedos, um e-mail com reticências… e o apaixonado se crê correspondido e, ainda que não revele explicitamente sua paixão, alimenta-se por dias e noites, principalmente noites, de fantasias inebriantes de felicidade máxima onde os beijos e os abraços imaginários são fogueiras de emoção e embalam o sono e os sonhos.

O apaixonado vive no mundo virtual da fantasia e se, por ventura, a fantasia transformar-se em realidade, será ele um dos raros (mas não poucos) a compreender o verdadeiro significado da vida.

Jogos de sedução, frases de duplo sentido, apertos de mão socialmente aceitáveis e ricas em significados e as pequenas confidências cotidianas fazem parte do “pode ser”, no imaginário do apaixonado que se alimenta dos possíveis indicativos como quem sorve a última gota de água.

Estar apaixonado é viver em dúvida, pisar em ovos, caminhar em terreno minado e, acima de tudo, torcer pelo final feliz, pelo momento sublime da realização da paixão.

Imagino que quando isto ocorre, quando o apaixonado está finalmente com sua paixão, pronto a desfrutar as emoções contidas, a deflagrar a intensidade da sua paixão, o sagrado faz sentido e neste momento a idéia de “divino” torna-se compreensível.

O encontro de dois apaixonados é sagrado e divino, para sempre e para a eternidade.

Felizes são os que se permitem, mesmo que contra tudo e contra todos, sentir tal imensurável intensidade de emoção.

2 comentários

Deixe um Comentário
  1. Rosângela Ayres / Out 13 2011 13:29

    Maravilhoso!

    Gostar

  2. Juliana A B Arosi / Jan 31 2015 20:41

    De perder o fôlego… Sem palavras. 🙂

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: