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28/09/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Literais

Ser mãe é chorar no Paraíso ou sorrir no Inferno?

Calma, eu sei, o correto é “padecer” e não “chorar” mas, por falta de tempo, por preguiça e pura ignorância, não encontrei o antônimo perfeito para a palavra “padecer”.

Então tomei a liberdade de trocar a palavra, sem pedir licença e me arriscando a levar cartão amarelo, quiçá vermelho, para poder iniciar esta crônica.

Padecer no Paraíso tudo bem, a mãe fica em estado de permanente graça com um filho, mas padece até o fim dos dias, preocupada com tudo que diz respeito a ele, desde a temperatura do cocô até o jeito que ele trata os bisnetos dela.

Agora você, que é inteligente, letrado, culto, antes de me criticar, me diga qual é o contrário de padecer? Não fui relapso, não senhor, consultei um dicionário de antônimos da língua portuguesa e não existe a rubrica “padecer”.

Procurei por aproximação, deleitar-se, por exemplo. Ser mãe é deleitar-se no Inferno. Fica horrível, deleitar-se já é um verbo ambíguo, com conotações eróticas insustentáveis para o propósito, no caso mãe e filho, sugerindo edipianos sentimentos que, aqui entre nós, não fica bem explorar numa crônica eticamente correta.

Alegrar-se, também pensei em alegrar-se. Ser mãe é alegrar-se no Inferno também não serve, não é o contrário de padecer no paraíso. Alegrar-se no Inferno é uma contradição em termos, um paradoxo e um sofisma. Impossível alegrar-se quando se arde em fogo eterno e se é torturado por mil demônios furiosos. No máximo se consegue um sorriso irônico, de auto-comiseração, mas alegrar-se nem mesmo a mais masoquista das mães conseguiria.

Ser mãe é regozijar-se no Inferno. Outra impossibilidade, além de que regozijar-se não é o antônimo de padecer.

A conclusão óbvia, escorreita e definitiva e que uma mãe no Inferno consegue, no máximo, sorrir. E sorrir é um oposto perfeito para chorar.

O que eu quero perguntar ao distinto público, à seleta platéia, aos prezados ouvintes é: Por que ser mãe não é regozijar-se, deleitar-se e alegrar-se no Paraíso? Por que ela tem que padecer, mesmo quando abençoada com a eterna bem-aventurança celestial?

Hein?

Essa mania dos ditados e provérbios jamais oferecerem a coisa completa é deveras irritante: é preferível ser pobre com saúde do que rico e doente. Não dá para ser rico com saúde? Quem semeia ventos colhe tempestades: Não é possível semear ventos e colher agradáveis brisas a acariciar nosso corpo, num dia de calor? Quem tudo quer tudo perde: Como assim? Não é admissível que, quem tudo queira, tudo ganhe? E o último exemplo: quem com ferro fere, com ferro será ferido. Por que? Não dá para ser ferido por uma pedra? Uma bala perdida ou um soco na cara? Melhor ainda, será que, quem com ferro fere, precisa ser ferido? Quem sabe o cara fere o outro com um ferro e vai, tranqüilamente, tomar um chope, azarar uma gatinha, jantar com a mulher e os filhos, assistir o jogo na TV e, nem de longe ser ferido, ainda mais com um ferro?

É por isso que eu não canso de dizer que a verdadeira sabedoria popular está muito distante dos ditados e provérbios. Porque eu, um popular, acredito piamente que, de grão em grão a galinha demora horas para encher o papo, quem cedo madruga passa um dia sonolento, quase improdutivo, e não vejo nenhuma razão lógica, racional ou metafísica para torcer-se um pepino desde pequeno. E, sinceramente, ainda bem que o fruto não cai longe da árvore, caso caísse eu teria que andar quilômetros para achar e comer a pêra.

Se quem sai aos seus não degenera, significa que quem sai aos meus degenera, quer dizer que só os seus possuem genes saudáveis? Que bobagem!

Caso você, mulher, que por acaso está lendo este desabafo, planeja ser mãe nos próximos dias, ouça um bom conselho e reflita bastante no que vou dizer agora, antes de praticar o abominável coito sem camisinha, pílula ou outra proteção: Caso você guie sua vida sob a influência dos ditos populares, desista: você está fadada a chorar no Paraíso ou sorrir no Inferno. Certo, certo, você está fadada a padecer no Paraíso o que, em outras palavras, equivale a trabalhar no local da diversão, por exemplo, ser síndica do edifício na praia, onde você tem apartamento e passa as férias,

Caso contrário vá em frente, não dê bola para as ameaças proverbiais, registre seu nome no livro dos que preservam a espécie humana e faça a única coisa, dentre todas as coisas possíveis e imaginárias, que eu jamais conseguirei fazer e que me causa uma brutal inveja: seja mãe.

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