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07/09/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Impressões perdidas

Há uns dez anos, levado por juvenil curiosidade, fui consultar uma enciclopédia para saber o significado e a origem do Impressionismo, movimento artístico surgido na França no Século XIX.

Era uma época atípica, ou típica, talvez, quando, em casamentos, vernissages, batizados, velórios e feiras livres, falava-se de pintura e pintores como fala de cavalos de corrida o turfista, como fala de nocautes o boxeador, como fala de pintura o leigo, porém investidor.

Conhecia, ou pessoalmente ou por ouvir falar, alguns artistas locais como Xico Stockinger, Fernando Baril (sem acento no ‘a’ que é o certo) Vasco Prado, Clara Pechansky, Zorávia Betiol, Iberê Camargo, Liana Timm, vários outros que estou esquecendo, na época artistas plásticos incipientes, outros consagrados, a maioria recebendo merecida consagração atual, como nomes importantes e definitivos das artes plásticas contemporâneas.

Além, bem além, dos raros que, naquele tempo viajavam para a Europa, ouvia falar em Monet, Manet, Renoir, Jeu de Paume, um Louvre imprescindível, Degàs, Matisse – os impressionistas – nomes e palavras inescrutáveis para mim, misteriosas e distantes. Sentia-me, nessas rodas, totalmente por fora, idiota  excluído, um mamute entre elefantes, um javali entre porcos-espinhos, um zumbi entre mortos-vivos.

Intolerável!

Está certo, foi há mais, bem mais, muito mais de dez anos, vinte ou trinta, e olhe lá.

Talvez quarenta…

Com absoluta certeza não havia computador nem Internet. Para saber, o compêndio era indispensável. E para ter uma idéia superficial, a enciclopédia era o caminho rápido.

Optei pela enciclopédia. Compêndios pesavam muito e não fui feito para carregar peso.

E lá fui eu consultar a Enciclopédia Jackson, a melhor, mais completa e acessível enciclopédia d’antão. No índice geral localizei rapidamente o verbete Impressionismo, volume e página.

Interessante: na época eu não usava óculos.

 

“Impression Du Soleil Levant”, “Impressão, Nascer do Sol”, um dos primeiros quadros de Claude Monet.

Monet pintou vistas de Paris em várias horas do dia, estudando as mutações coloridas do ambiente e sua luminosidade; recebe uma crítica pungente do não menos pungente pintor e escritor Louis Leroy, que declarou simplesmente: “Pensava eu, se estou impressionado é porque há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado do que essa cena marinha”, numa tradução mais ou menos livre do francês.

Monet e seus colegas, apesar do tom pejorativo inicial, adotaram o termo impressionismo, certo de que estavam criando uma nova escola, uma verdadeira revolução no mundo das artes.

Eu sou sincero, não me atrevo a mentir para vocês: Não tenho mais certeza de ter lido isso tudo na Enciclopédia Jackson há trinta e cinco anos. Talvez, ao longo dos anos, tenha lido mais sobre o Impressionismo, seus autores, suas técnicas e estilo. Com certeza sim, principalmente após ter visto os quadros, ao vivo e a cores, no Jeu de Paume, em Paris, anos bem mais tarde daquela primeira curiosidade.

Recordo, com certeza, que uma crítica maldosa deu origem ao nome do revolucionário movimento, justamente aquela acima citada.

Há cerca de dez anos – agora sim -, por volta do ano 2000, estava eu olhando a vista, de uma das janelas do meu escritório, e tive uma idéia reveladora.

Para quem não conhece: meu escritório fica no sétimo andar de um edifício, no Centro de Porto Alegre, exatamente em frente a Praça da Alfândega, aquela onde se realiza anualmente a Feira do Livro.

Das minhas janelas vejo a copa das árvores da Praça, Ipês, Jacarandás e outras marcas, assisto seus passeios e transeuntes. Mais ao fundo, à esquerda o prédio histórico onde se localiza o MARGS, e do lado direito o prédio, também histórico, onde se localiza o Museu Histórico, com sua torre parisiense e o grande relógio, redondo e verde, a marcar as horas de trabalho e devaneio.

Ainda mais ao fundo, enxergo o portal de entrada do Cais do Porto, marcado por uma linha reta de palmeiras imensas, tudo desembocando nas águas de prata do Rio Guaíba, com suas ilhotas onde o verde da vegetação prevalece.

Mal descrita, insuficiente para a sua realidade, o que consigo ver das minhas janelas é uma visão soberba, ao mesmo tempo estimulante e relaxante, para os melhores e piores momentos.

Qual foi a idéia reveladora que tive naquela tarde, há dez anos? Fazer um estudo fotográfico, em preto e branco, da mesma paisagem, com fotos tiradas do mesmo lugar, ao longo das diversas horas, do amanhecer ao entardecer, percorrendo as quatro estações do ano. Seria o meu “Impressões de uma mesma Paisagem”, para meu consumo e satisfação.

Trouxe de casa uma máquina fotográfica e um tripé, sobre a qual fixei o instrumento, e comprei três rolos de filme Kodak, preto e branco, trinta e seis poses cada um.

E pus-me a fotografar, aleatoriamente, inspirado ou não, imaginando que teria umas noventa fotos ao final da experiência e o registro definitivo do que minha visão observava, daquele lugar.

Não me exigiu o menor esforço, não me deu nenhum trabalho.

Quase um ano depois, ao bater a última foto do terceiro rolo, mandei os três para revelação, coisa que demorava dois dias, no mínimo, naquela época.

Quando mandei buscar, recebi três envelopes contendo, cada um, um rolo de filme e nenhuma foto. Nenhuma foto! Os filmes haviam queimado.

Mal acreditei.

“Todo esse trabalhão para nada”, pensei, mas logo lembrei que não tivera trabalho algum. Conformado, tirei a máquina do tripé e, olhando para ela, descobri uma pequena fenda no encaixe da abertura para colocar os filmes e, por ali, entrou a luz que vedou as minhas fotos.

Traído pela tecnologia. Traído pela falta de atenção. Traído por uma fenda de luz.

Joguei os filmes e a máquina no lixo, guardei o tripé num armário e nunca mais tirei uma fotografia.

Não, meu querido, não foi trauma, foi falta de oportunidade, pura e simplesmente. Logo surgiram as máquinas digitais sem filme, celulares que tiram fotografia e a experiência toda serviu apenas para contá-la, hoje, nesta crônica.

Moral da história? Quem não guarda não tem.

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