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31/08/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Gota a gota

Lembra o seu pé? Exatamente, o seu pé, pode ser o esquerdo e o direito, tanto faz. Seu velho amigo que o sustenta o dia inteiro, quase nunca reclama e que lhe dá tanto alívio quando você o bota para cima, no final de um dia de trabalho.

Agora imagine que o seu velho pé, que o acompanha desde criança, subitamente comece a se transformar diante dos seus olhos, inchando, inchando, primeiro os dedinhos, depois a parte de cima, o peito do seu pé inchando tanto que, ao final do inchaço parece uma boa de futebol americano, aquela oval.

E você, olhando para ele, pela primeira vez compreende o verdadeiro significado da expressão “efeito especial”, tão utilizada na cinema.

Imagine também que o inchaço não é o único fenômeno que acometeu seu querido pezinho (ou pezão), não senhor! Incha é dói ao mesmo tempo.

Não, prestigiado auditório, não estou falando de dor, estou valando da dor, a dor definitiva que nasce no fundo da alma do seu pé, percorre todas as entranhas dele, cada nervo dele, cada osso dele, cada pedacinho de carne dele e reflete na pele dele com tal voracidade que, à mais suave brisa vagabunda que por ele passe, faz você urrar qual um urso estuprado, qual um leão psicopata.

Além do prejuízo material, o dano moral assume proporções incalculáveis quando você descobre, graças ao diagnóstico de seu sádico médico, que a causa do inchaço e da dor é uma doença popularmente conhecida pelo vulgo, no popular, como “gota”.

Os mais antigos, como eu, com certeza lembram dos Sobrinhos do Capitão que adoravam dar pauladas no pé enfaixado do seu infortunado tio, sempre às voltas com a gota, doença sabidamente cultivada pelos reis e pelos nobres medievais, visto serem eles os principais consumidores de proteínas, nos seus tempos, cabendo à plebe em geral e ao populacho em particular, a ingestão de alimentos mais frugais e destituídos de gorduras, tão em voga na atualidade como modelo de alimentação saudável. Outro personagem histórico a sofrer de gota era Pafúncio, um milionário americano torturado pela esposa exigente, freqüentadora da alta sociedade americana.

E eu.

Exatamente, eu, este ser que vos fala sem modéstia, passei a semana passada inteira com uma crise de gota, curtindo dores dantescas e estranhando as conformações do meu pé direito com quem, somente ontem, passei a  recuperar um mínimo de intimidade.

Que eu sofra de gota é perfeitamente explicável, embora minha última crise tenha sido há exatos onze anos: minha mãe sempre me disse que me criou como um príncipe. E, como um príncipe criado, natural que, além das vantagens inerentes à nobreza, sofra alguns dos percalços, dentre eles a gota, visto que as melhores carnes e frutos do mar, as melhores bebidas e as melhores saladas de brócolis sejam fontes notáveis de proteína e, mesmo que não as coma ou beba constantemente, estão sempre por ali, a rondar meu apetite principesco e a sugerir possíveis excessos.

A vida de príncipe é dura e, se me fosse dado retornar ao passado, pediria a minha mãe que modificasse minha educação e me criasse como um simples burguês, sem as sofisticações da nobreza e com um ego adequado à realidade de uma saborosa feijoada, um ovo frito de vez em quando e sem desculpas estapafúrdias para excessos buco-estomacais. Ah, como seria melhor a vida!

Quatro dias na cama sem poder encostar no pé, que não tirou os olhos de mim, deformado e dolorido, do alto de uma almofada de sofá, não é brincadeira de criança nem de adulto.

Muito pelo contrário, é tempo para refletir sobre a futilidade, a falta de sentido, a origem da vida, os mistérios do sexo, o último tango da Libertad Lamarque, a técnica de pasteurização dos queijos-prato, a produção de soja, a organização democrática dos radicais livres e a criação de uma ONG.

Tempo para maldizer, arder, penar e sofrer.

Tempo para compreender como são frágeis os plânctons e sua descendência, descobrir que a televisão é muito menos do que se pensa, que a leitura é incompatível com a dor e, penar dos penares, como são boas as coisas simples da vida como, por exemplo, passar um dia inteira sem nenhuma dor.

Mas, como dizem, bobagem pouca e desgraça não duram para sempre e finalmente a dor cedeu, cedeu e passou, o pé desinchou, desinchou e já se parece novamente com um ser humano.

E aqui estou eu, firme e forte, pronto para o que der e para o que vier, sem racismo, preconceito e discriminação e com uma firme determinação na vida: nunca mais tomar aspirina que eleva os níveis do ácido úrico a dimensões supra-renais, fazendo com que ultrapasse os limites e passe a gotejar, gota a gota, no seu velho amigo pé e, dependendo do transborde, nos dois.

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