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24/08/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Gosto é gosto

Canso de afirmar que mulher, futebol, religião, política, marca de vinho, cor de automóvel, taras individuais, ópera, corte de cabelo, samba-canção e chinelo de dedo não se discutem.

Canso de afirmar que a única coisa sobre a qual vale a pena discutir é o Gosto. Quando se discute sobre Gosto chega-se a algum lugar, vai-se a Roma, conclui-se e até mesmo briga-se a socos e pontapés.

Gosto é bom de discutir pela universalidade do tema, pela diversidade da coisa, como diria o outro, pela onipresente parceria disposta à abordagem do tema, com veemência, candura, ira e sex-appeal.

Discutir sobre mulher não tem graça pois as mulheres são indiscutíveis, talvez sobre o tamanho do pé, mais gordinha ou mais magrinha, sapecas ou comportadas, apenas frivolidades, nada essencial e relevante.

Mulher é e ponto final.

E não discuta!

Religião cada um tem a sua, até os que, como eu, são ateus e fazem do ateísmo uma religião e pronto.

Política é lá tema para discussão? Não conheço uma única conversa sobre política que não termine com a mesma conclusão que não vou escrever aqui porque de nada adiante, nenhum presta mesmo… Vá lá que seja, tem uns que, vá lá que seja.

Quer discutir sobre marca de vinho? Pode discutir mas tem que usar os termos corretos: bouquê, densidade honesta, safra, tipo de uva, ano, alacricidade…

Cor de automóvel? Vai discutir como? O assunto se esgota na segunda palavra.

Etc, etc.

Deixei o futebol por último de propósito. Não que eu queira discutir sobre futebol, sobretudo aqui no Sul onde, no dia do meu aniversário, operou-se o mais glorioso massacre que se poderia imaginar, sobre a arrogância, a prepotência e a falsa liderança.

Foi coisa de não esquecer, de guardar na memória e carregar no lombo por décadas, tamanha lambada em 45 minutos não se tinha notícia. A alegada máquina que esmagaria o dono da casa, foi-se ver, era de papelão molhado, cada uma de suas peças demonstrando pavor diante da soberba ação do adversário, praticada com movimentos harmônicos, incisivos, cortantes e perfurantes fazendo da máquina de papelão molhado um amontoado aturdido reposto devidamente no seu lugar secundário, isto é, numa divisão inferior de onde jamais deveria ousar sair.

É o que acontece com os pequenos diante dos grandes: mostram os dentes e as unhas, arreganham e fazem careta, berram, estrebucham e, quando voltam a si, estão de quatro, chorando as mágoas e lambendo as patas.

Não, eu insisto, não se discute futebol. O futebol, quando é, é indiscutível. Quando não é, segundo a teoria geral das aparências, sucumbe aos poucos, como a mulher amada que diz não, não… nããão… sim, sim, sim! E entrega-se ao valor mais alto qual criança que adora o papai.

Dizem que na vida, quanto maior a pretensão, maior o tombo. E quando ele acontece é assim, monumental, escorchante, arrasador, a soberba maquinação transformada em pó, a arrogantemente alardeada imortalidade deparando-se com a própria finitude pois não há barro que resista a quatro estocadas fulminantes, desferidas pela verdadeira grandeza.

Discutir futebol? Nem em sonho. Nem que a vaca tussa, atole-se no brejo e rumine. Nem que chovam canivetes, paquidermes ou ácido nítrico – se é que isso existe.

Não, não, meu caro quadrifactum, não discuta futebol, não faça isso, limite-se a admirar, a sofrer e a perguntar-se qual a razão de seu infortúnio, em que desavisado momento de sua vida você fez tão infeliz escolha. E sofra, que é o que lhe resta.

Porém, não sou intransigente e faço concessões. Estou pronto a discutir com você, a qualquer hora e em qualquer circunstância, aquilo que realmente vale a pena ser discutido: Gosto.

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