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14/07/2011 / Paulo Wainberg

UMA CITAÇÃO PARA O TEMPO

Não consigo imaginar o Tempo como uma linha continua porque, às vezes, me pego lá adiante olhando aqui para trás, outras vezes estou aqui atrás, olhando lá para frente.

E quando, graças à uma convulsão cósmica, estou aqui e agora, exatamente neste instante que acabou de passar, penso no instante seguinte que também acabou de passar, e no instante seguinte que acabou de passar no exato momento em que acrescento um ponto neste parágrafo.

Das abstrações humanas, acho o Tempo uma das mais torturantes, não é a toa que na mitologia grega era representado por Chronos (Saturno, na romana), que devorava seus filhos até que aconteceu a revolta dos Titãs, liderada por Zeus.

Se o passado já passou, se o futuro não existe e se o presente é tão infinitamente curto, nada mais me resta, justo eu que odeio citadores, do que encontrar uma citação de peso, que ilustre eruditamente minhas palavras.

Citadores são, por natureza e por definição, chatos. E por excelência.

– Para Freud – Começa o citador. – Manoel Bandeira, no magistral poema…. – segue ele. – Leibowitz gostava de dizer… – Conclui.

Citadores não possuem palavras próprias e foram agraciados com fenomenal memória, graças a qual decoram tudo o que lêem ou escutam, e estão prontos a repetir frases, versos e pensamentos alheios, não importam as circunstâncias, o dia, a hora, o Tempo, afinal.

Pegam você pelo braço, em plena festa e no momento em que a conversa com ela começa a ficar interessante, e lascam, a boca quase encostando em sua orelha:

– Acho que esta aí está dando uma de Madame Sthendal, segundo Flaubert.

Você pensa na Madame Bovary, mas é melhor deixar assim, afinal citadores também são humanos .

Ou:

– Sabe o que Jung diria, numa situação desta?

Todos temos um citador atormentador. Eu, é claro, tenho o meu, mais humilde, um citador de jornal que, ainda por cima, me cutuca quando fala comigo:

– Sabe o que disse o Herald Tribune de Chicago sobre o número de mortos na guerra do Fruzisquistão?

– Não – tento escapar.

– Dois milhões morreram de fogo amigo. Viu? Viu?

E me cutuca, me cutuca, me empurra para o canto, olhar perfunctório e cheio de razão. Só consigo balbuciar:

– Barbaridade.

Porque, como demonstram as estatísticas, ninguém escapa de um citador. Ele persegue a vítima, quando o pobre menos espera, ele está novamente ao teu lado, murmurando que “o mundo sem poesia é como churrasco sem sal” segundo Alexandre Herculano.

Sim, sim, não posso esquecer de acrescentar um aspecto fundamental, na questão: o citador acredita piamente na tua ignorância e, na rara e eventual falta de algo para citar, ele inventa, sem o menor constrangimento:

– Para Sócrates a verdade estava na família. Já Eurípedes achava que não.

E você, que não estudou quando devia, que não fez a lição de casa como sua mãe mandava, que não leu os livros que seu pai dizia para ler, é obrigado a acreditar no citador e a humilhar-se diante do fenômeno de cultura e sabedoria que, neste exato instante que já passou, cutuca tua barriga com o dedo indicador.

Ela, com quem a conversa começava a ficar interessante, sugerindo bons prognósticos para o futuro imediato, há muito sumiu no meio da festa, bem indignada: Você preferiu um citador, então vai te catar.

É triste, é lamentável, justo eu que estava, estou, estarei em busca de uma citação inteligente para dignificar minhas palavras iniciais, não encontro nenhuma.

Não considero o Tempo percorrendo uma linha contínua porque, acho que é porque, tenho certeza, é porque o Tempo é relativo.

Sim, como dizia Einstein.

 

 

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