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06/07/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – E nem estou falando em herpes

Eu ia dizer que a diferença entre “hérnia” e “harpia é que hérnia existe e harpia, não.

Ah essa falta cultura, já afirmou Millor. Ou não foi ele?

Não fosse o Google e eu manteria a afirmação porque pesquisar em enciclopédias ou dicionários envolve um trabalho que minha preguiça – meu pecado capital preferido depois da luxúria – não tolera.

Descobri que “harpia” é uma ave de rapina brasileira – você sabia? – a maior do mundo, também conhecida na intimidade como falcão-real.

O que eu sabia é que a harpia, na mitologia grega, era uma ave de rapina com rosto de mulher e seios (ah, seios…) que não permitia que Lineu, um profeta cego, se alimentasse. Jasão, o comandante da nau Argos, que convocou os heróis gregos, entre eles Hércules e Orfeu, para que trouxessem o velocino de ouro que, no popular, significa uma pele de carneiro de ouro, criando um grupo chamado os Argonautas, nos dias de hoje renegada a uma possível banda de roquenrol, provavelmente “cover”, conseguiu, através de um expediente pouco ético, combater e vencer as harpias, permitindo assim que Lineu, atualmente interpretado por Marco Nannini em a Grande Família, finalmente pudesse comer em paz.

O resto da história com certeza você conhece.

Portanto, na real, hérnia e harpia são reais e cada uma exerce suas funções naturais, uma de atormentar os homens e a outra para rapinar, do alto de sua realeza.

Acho que os antigos gregos sofriam de hérnias terríveis e, poeticamente, inventaram as harpias para justificá-las.

Antes de entrar no assunto propriamente dito impõe-se esclarecer que as harpias seriam descendentes de Parsifae e seu amor tumultuado com um touro. O mais expressivo produto desse amor foi o Minotauro, monstro metade homem, metade touro. Ele gerou também Ariadne, fruto de uma transa como rei Minos, de Creta, que encomendou a Dédalo a construção do Labirinto, no qual aprisionou o Minotauro que ameaçava comer a ilha de Creta inteira, inclusive a própria mãe, onde é que já se viu?

Teseu (não confundir com tesão), determinado a destruir o monstro, resolve enfrentar os meandros do Labirinto, mesmo sabendo que todas as outras tentativas resultaram em morte horrível, devorados que foram os antecessores, pelo Minotauro ou pela fome, porque entravam lá e não conseguiam sair.

Ariadne, entretanto, apaixonou-se por Teseu e, para proteger o amado, oferece-lhe um fio, o famoso Fio de Ariadne, que guiou o herói Labirinto adentro, permitiu-lhe decepar a cabeça de touro do monstro e encontrar a saída sem qualquer esforço, seguindo o Fio da amada até, como se diz no vulgo, passar-lhe o fio a valer.

Teseu, agradecido mas nem tanto, leva Ariadne em seu cavalo branco para abandoná-la na primeira estalagem onde a jovem donzela padece pelo amor do ingrato. É então que Afrodite, compadecida mas não virgem, introduz Baco na vida da ninfa, ele mesmo, o futuro Dionísio romano, que toma Ariadne literalmente e com ela percorre sua trajetória devassa nos tortuosos meandros da sacanagem explícita, com todo o tipo de gente e de animal, reinando soberano sobre o vinho e seus eflúvios, ingressando no mundo moderno, com seu nome antigo, sob o sugestivo e atraente programa, que a todos seduz, conhecido como bacanal ou, novamente no vulgo, suruba atômica.

Ficou claro?

Estas revelações, que estou fazendo em primeira mão, têm dois objetivos: o primeiro é para que você, que por acaso se chama Ariadne ou por este nome é conhecido, sinta-se orgulhoso do nome ou do epíteto. Você pode sentir-se altivo pois seu apelido é revelador de um apetite amoroso super dimensional, ultra-carismático, hiper-calamitoso, super-ultra-hiper-sensorial.

Capice?

O segundo é que, não se chamando Ariadne, não descender de harpias e nunca ter sido comido por um Minotauro, outra sorte não lhe resta – ou não me resta – do que ser o trágico portador de uma hérnia de disco.

Você sabia que existem discos, na sua coluna vertebral? Pois é, eles existem e não são CDs, Ipods, sequer míseros long-plays. São discos de setenta e oito rotações, dos mais antigos, daqueles que você procura em duzentos e dezessete antiquários e não encontra.

Não perca tempo, meu caro, faça uma tomografia computadorizada, uma cintilografia ou, sei lá, uma radioscopia vituperal e encontrará dezenas de pequenos discos rodando a mil entre as vértebras de sua coluna, cada um deles tocando ao bel-prazer, desde o mais sórdido rapp do bas-fond a mais eloquente sinfonia dodecafônica do mais obscuro, desconhecido e ignorado compositor contemporâneo.

Isto quando está tudo numa boa.

Porque quando tais discos arranham e começam a saltar ou repetir o mesmo acorde ad infinitum, você vai saber o quanto dói uma ranhura, vai conhecer o verdadeiro significado da expressão a dor ensina a gemer e vai compreender o verdadeiro, legítimo e único significado da palavra paralisia.

E quando um piadista sem graça disser na TV que só dói quando ele ri, autorizo seu olhar de desdém, sua expressão de pouco caso e seu sentimento de auto-comiseração porque, posso garantir, assinar como avalista e hipotecar a casa própria, você, no lugar dele, estará dizendo que só dói quando você respira.

Sabe por que? Porque você cultivou hérnias no seu disco, prezado leitor, estimada leitora.

Hérnia de disco dilacera mais do que as garras de um falcão-rei ou de uma ave de rapina com rosto de mulher, seios (ah…) de mulher, dentes de vampiro e garras de falcão-rei, pode acreditar.

O primeiro sintoma é, por que não dizer?, sintomático: você levanta da cama e seu tronco forma um ângulo reto a partir da cintura para baixo. Sua cabeça está perpendicular à linha do colchão, o braço direito quase tocando o solo e é assim que você tenta caminhar, como se fosse um caranguejo ao contrário.

Evidentemente, como diria um deputado na CPI, você não consegue. A dor lancinante faz você sentir inveja de uma facada na cintura e, como um saco de batatas cheio até a metade, você desaba na cama, a cintura para cima no colchão e as pernas para o lado de fora, pesando e doendo como vou te contar.

É um momento sui-generis: você sente inveja da mulher que é serrada ao meio, no show do mágico. Você quer ser “Boris, o homem tronco”, lembra? E, num derradeiro gesto de humanidade, numa última manifestação de consciência você urra como uma foca dando à luz às mil e quinhentas foquinhas de uma só vez.

Você é o feliz possuidor de uma hérnia de disco, meu caro. Sua vida nunca mais será a mesma porque, como mosqueiro no cocô, você será invadido por hordas insaciáveis de neurologistas, traumatologistas, apucunturistas japoneses, massagistas coreanos, injeções de cortisona e comprimidos anti-inflamatórios. Além dos insaciáveis exemplificadores, amigos e conhecidos que sabem tudo a respeito e tem soluções infalíveis para resolver o drama, dentre elas a mais evocada, sugerida e aconselhada: bolsa de água quente e repouso.

Enquanto isso eu ali, estendido como um polvo anestesiado, sem posição, sem ânimo e sem sossego, doendo a perna e a cintura, implorando por uma harpia feroz que me devore a medula ou por uma canja de galinha que re-estabelecesse a até então cordial relação que sempre mantive com meu estômago.

Descobri, graças à hérnia de disco que, ao contrário do resto da humanidade que convive com a flora, possuo uma fauna intestinal constituída de bilhões de bichos microscópios cuja única finalidade na existência é provocar ardência, cólica, dores difusas e, para complementar, um pouco mais de ardência, ao som empolgante da banda de remédios.

Se você for um grego antigo dê graças aos deuses do Olimpo e aos poetas de então, em especial, a Alceu, Safo e Anacreonte que, ao som mavioso da lira, compuseram odes a tudo e a todos, abençoados por Apolo, Hera e Afrodite.

Caso contrário não exulte porque, levanta peso daqui, levanta peso dali, mais cedo ou mais tarde seus discos medulares arranharão e, quando você menos espera, abaixando-se para pegar uma página do jornal, amarrar os cordões do sapato ou pintar as unhas dos pés, uma harpia hernial dará o ar da graça e você conhecerá o verdadeiro significado de o suplício de uma saudade.

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