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22/06/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – E agora?

Acabaram as especulações: o mundo acabará dentro de sete bilhões quinhentos e nove milhões de anos, conforme informou o New York Times, na semana passada. O Sol entrará em colapso e tirará a Terra de sua órbita, destruindo tudo o que aqui se fez e construiu, inclusive esta crônica.

Não sou do tipo organizado ou previdente, portanto não me preocupei muito. Não costumo saber as datas de vencimentos de minhas contas, não organizo minhas agendas com muita antecipação, gosto de deixar as coisas acontecerem ao sabor dos ventos, do acaso e das tempestades.

Trato de levar a vida sem orgasmos prévios, sem glórias programadas e sem marcar hora no dentista.

Daqui a sete bilhões quinhentos e nove milhões de anos, quando acontecer o fim do mundo, certamente terei deixado de fazer várias coisas,  algumas prestações do carro estarão atrasadas, terei adiado dois compromissos, não terei feito a prova do meu terno no alfaiate, um amigo ficará me esperando para um chope no bar e não terei cortado os cabelos, como planejara na semana passada.

Se até lá eu tiver netos, provavelmente o passeio no zoológico que, há meses tinha prometido, ficará irremediavelmente prejudicado.

Tudo bem, este sou eu. Não fiquei preocupado com a notícia nem você precisa se preocupar comigo.

Mas e você, que é todo certinho? Que tem, planejada, sua vida para os próximos dois anos? Que deixa os cheques prontos para as pagar as contas do primeiro semestre? Que não sai de casa antes de programar exatamente as ruas que vai percorrer, as sinaleiras que vai encontrar, os cruzamentos que terá que cruzar e o horário exato em que vai chegar?

Como vai reagir a essa notícia?

Imagino que, sabendo que daqui a sete bilhões quinhentos e nove milhões de anos o mundo vai acabar, você deixará tudo perfeitamente em ordem, nada ao acaso, nenhum problema para a posteridade resolver. E como não vai haver posteridade, você será dissolvido, juntamente com toda a humanidade, sem remorso, sem culpa e sem prole.

Talvez você ache que sete bilhões de anos é logo ali, quando vê já passou, você não pode deixar as coisas soltas, é necessário prever tudo e, no caso de o fim do mundo acontecer uns meses antes, pior do que isso, uns anos antes, quem sabe os cientistas que determinaram a data erraram em um ou dois bilhões de anos, como é que você vai se explicar para você mesmo se, digamos, deixou faltar azeite na sua despensa? Com que cara você vai olhar para si mesmo, no espelho, sabendo que o mundo acabou antes de cancelar a assinatura do jornal? Como é que você encarará as duas estagiárias que marcaram entrevistas? E os cheques do segundo semestre? E a sogra que vinha almoçar domingo que vem?

Não esqueça, quando você menos espera, mal se deu conta, sete bilhões de anos se passaram e é bom você ir se preparando, organizando tudo, nada deve ficar ao acaso porque, lamento dizer, se você é assim, caso morra antes da data prevista para o fim do mundo, vai morrer profundamente preocupado com as centenas de coisas agendadas e que não vai poder cumprir.

A diferença entre nós dois é que, do meu ponto de vista, o mundo pode acabar amanhã de manhã porque provavelmente terei esquecido de jogar na mega-sena e, salvo algumas paixões ocasionais, outros afetos importantes, três ou quatro coisas que deixei para a semana que vem, alguns filmes que não vi e uns poucos milhares de dólares que não tenho, nada mais perderei.

Já você que, antes de pegar no sono, repassa tintintin por tintintin todos os compromissos de amanhã e é capaz de levantar para conferir na agenda, está contando com um feriadão no segundo semestre para o qual você já fez reserva, comprou passagem, separou o dinheiro e estabeleceu o roteiro completo, de manhã, de tarde e de noite, sabe que no sábado à tarde, daqui a quatro meses, vai almoçar ao meio-dia e meia naquela churrascaria que, há quinze anos, na mesma data, você freqüenta e não permite, nem que a vaca tussa, chovam canivetes, vacas atolem no brejo e moscas varejeiras invadam seu banheiro, qualquer alteração na sua rotina, nos seus horários e hábitos, pode se preocupar muito, muitíssimo, com a anunciada data do fim do mundo. Quando ele chegar você terá tudo em dia, suas cuecas e meias, lavadas e arrumadas no armário, o imposto de renda conferido, revisto e declarado, o INSS da sua empregada doméstica rigorosamente em dia e sabendo exatamente o que vai acontecer na novela de televisão que, nem morto, você perde.

Previdência e previsão, esse é o seu nome. Ou, em outras palavras, você é um chato e digo isso com todo o respeito e sem querer ofender. Mas alguém tão previsível, que não abre nenhum espaço para o acaso, para a aventura e para a emoção, pode tranqüilamente esperar mais sete bilhões e uns quebrados de anos pelo fim do mundo. Eu prefiro que me aconteça tudo o que você não deixa acontecer a você, mesmo que o meu fim do mundo venha antes.

No fim das contas, um pouco antes, um pouco depois, o mundo vai acabar para nós dois. A diferença é que eu terei vivido e você… se preocupado.

4 comentários

Deixe um Comentário
  1. June Souza / Jun 22 2011 10:34

    Independente do mundo acabar hoje ou dentro de sete bilhoes de pitangas, penso que todo extremo é assustador. O descolado demais e o previsível demais não vão chegar a lugar algum. Minha balança tomba mais para o lado planejado da vida, talvez por isso sofra um pouco com as frustrações dos planos não realizados. Mas acho tão sentindo viver um dia após o outro, sem esperar nada dele, enfim, deve ser meio chato…
    Como sempre, ótima crônica! Vou refletir e tentar planejar menos rsrs

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  2. June Souza - BH/MG / Jun 22 2011 14:14

    Ah! Já planejei todo o feriado: meu feriado está sem planos! rsrs
    Imagina se eu conseguiria… sexta já planejei que vou correr 18km! Se eu estiver viva, claro! rsrs

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  3. ronaldo / Jul 7 2015 23:00

    ” O eterno equilíbrio da razão ” Se existe ainda procuro. Jamais encontraremos… apreendi uma coisa a dar gargalhada diante de tudo…

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