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15/06/2011 / Paulo Wainberg

Paixão e paciência

E por falar nisso, onde anda a paixão? Aquela de rasgar as veias, fibrilar os nervos e emagrecer vinte quilos?

Sim, porque o melhor regime para emagrecer é apaixonar-se, apaixonado não come e, se come, seu metabolismo está tão acelerado que consome imediatamente as energias e as gorduras.

Seria bonito de ver uma humanidade inteira permanentemente apaixonada, mas isto não acontece graças aos interesses corporativos dos nutricionistas, dos médicos especialistas em regimes e dos fabricantes de armas.

A mídia também exerce seus poderes de influência através de lobistas altamente remunerados, impedindo que os congressos nacionais legislem sobre a paixão, tornando-a obrigatória e permanente.

É óbvio, é evidente que uma humanidade apaixonada não iria se interessar por noticiários que só noticiariam coisas boas.

Eu já percebi há muito tempo que os apaixonados não se corrompem nem corrompem os outros. Não se interessam em obter e conceder favores, ocupar cargos, ganhar mais dinheiro porque estão felizes e focados na paixão.

Quando ela arrefece ou some – por falta da legislação adequada – o desapaixonado volta às origens e, se for um senador, até arranja uma empresa para pagar-lhe a pensão.

Seria muito linda uma humanidade apaixonada, gente se gostando à torto e à direito, pessoas em permanente estado de amor febril, a espera de encontrar, encontrando ou revivendo os momentos do encontro.

Numa humanidade apaixonada quem ia se preocupar em fazer guerra na África ou em qualquer lugar do mundo. Imagino a cena: um coronel desapaixonado ordenando à tropa: Atacar! E os soldados, pensando nas suas amadas, olham entre si com ar indagador: atacar? Esse cara deve estar louco, não vamos atacar ninguém, imagina se eu vou atacar, eu vou é me encontrar com minha paixão.

Pois é. Seria mesmo muito linda uma humanidade apaixonada.

Qual gremista apaixonado, por mais fanático que seja, estaria se preocupando com, bem… por exemplo, o Celso Roth? Hein?

Bem, mas isso é outro assunto, quero falar mesmo da paixão. Onde será que ela anda? Alguém pode me dizer?

Só existe uma coisa mais inútil do que completar uma paciência tradicional no computador: completar uma paciência spider no computador. A paciência comum é uma distração ancestral, desde que inventaram o baralho.  Spider não, é produto típico da cibernética, imaginada por um cérebro eletrônico profundamente neurótico que jamais tomou prosac.

Vá em “iniciar”, “programas”, “jogos”, clique em spider e prepare-se para ingressar num universo torturante em três níveis. O fácil é fácil mesmo e sem graça, pois é jogado com um único naipe. O médio utiliza dois naipes, complicando bem a possibilidade de sucesso. E o difícil é quase impossível, usa os quatro naipes e a sua probabilidade de fechar o jogo é de uma em vinte partidas.

Vícios existem para todos os gostos como roleta, pôquer, bebida, drogas, cigarro, pregos, algemas e saltos altos. Mas ficar viciado em spider é a falência, a quebra total e irreversível da sensibilidade da alma.

O grande problema é que esse joguinho é danado, você começa a jogar as oito e às quatro da madrugada ainda está jogando “a última”. O jogo foi concebido com algum ingrediente subliminar que sugere que você jogue “a última” o tempo todo, por mais que você saiba que está perdendo tempo, que completar ou não o jogo resulta na mesma coisa, isto é, nada, você vai ser instigado, provocado e irremediavelmente compelido a jogar mais uma, a última.

Caso não ocorra um fato novo, desmaiar sobre o mouse, um dor de barriga soberba ou os gritos das crianças implorando por comida, você insiste em jogar “a última” até o fim dos tempos e quando, finalmente, joga “a definitivamente última” e vai dormir não consegue pegar no sono porque, na sua mente, os movimentos do jogo não param, você só vê sequências multi-naipes, três de ouros sob quatro de paus, a tela do computador preenchida pelas cartas tomando conta da sua atenção, exigindo estratégias e propondo alternativas para alinhar de ás a rei do mesmo naipe e formar um montinho no canto esquerdo, ali embaixo.

Qual é a graça desse jogo, por todos os cavacos do ofício? Por que ele está sempre ali, a espreita de ser jogado, quando você tem tanta coisa para fazer?

Que estranho poder é esse, tão forte quanto o de certos senadores que, muda governo, muda partido, estão sempre ali, nas bocas, presidindo isto ou aquilo, acumulando riquezas e enganando os povos?

Não sei, palavra de honra.

Se a humanidade fosse apaixonada, com toda certeza não existiria o spider e muito menos o senado.

Entre um e outro, fico com a paixão, se alguém me disser onde ela está.

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