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08/06/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Detalhes tão pequenos de nós dois

Mildríades resfolegou diante e um corcel vermelho, ano 73, tala larga e roda de magnésio.

Era obcecada por carros, dos mais antigos aos mais modernos e resfolegar era seu exercício respiratório preferido.

E assim, resfolegando, aproximou-se do motorista e sem sequer perguntar pela família  logo indagou: – Quer vender? –  E o motorista: – Não.

Acordou de manhã com a palavra na cabeça. Tomou banho e a palavra não saia de sua cabeça. Durante o café sujou os dedos com manteiga por causa da palavra que não saia de sua cabeça. Tentou ler o jornal mas a palavra não saia de sua cabeça e não conseguiu se concentrar.

Ligou o carro na garagem com a palavra martelando em sua cabeça. Deu marcha-ré e entrou na avenida, obrigando um Corsa a frear ruidosamente para evitar uma batida. O motorista do Corsa, indignado, gritou: – Olha por onde anda, imbecil! E a palavra finalmente saiu de sua cabeça quando respondeu, ultrajado: – Isto é um vilipêndio!

Mordeu com gosto a maçã e sentiu-se desfalecer: o dente da frente quebrou. Sentiu na boca a mistura da maçã com o dente enquanto tentava, quase em desespero, separar uma do outro. A platéia à sua frente ouvia com atenção as palavras elogiosas do mediador, anunciando o currículo e a importância dele, o palestrante do dia. Conseguiu engolir o pedaço de maçã depois de colocar o dente quebrado sob a língua. Disfarçando, fingiu coçar a boca e empunhou o dente, colocando-o como quem não quer nada no bolso do colete. Quando o mediador passou-lhe a palavra ergueu-se, foi até o púlpito e, diante do microfone, abriu um sorriso desdentado e disse, sibilando, a ponta da língua escorregando pelo buraco entre os outros dois dentes, que a conferência estava adiada por um defeito no teclado. A platéia ovacionou aliviada e a maioria foi para o pátio da escola jogar futebol.

Ademir chegou cedo em casa e encontrou sua mulher na cama com Ademar, seu compadre. Sem alarde, saiu e foi para a casa de Ademar e lá chegando puxou a mulher dele, muito mais bonita do que a sua, para o quarto. Ela não resistiu e até sorriu. Enquanto tiravam a roupa Ademir concluiu, satisfeito, que naquela noite poderia assistir televisão em paz, depois do jantar.

Laurita deixou as crianças as sete no colégio como fazia, todas as manhãs. Voltou para casa, encheu a banheira de hidromassagem e deitou-se na água tépida, sentindo a energia dos jatos massagearem-lhe o corpo. Abriu o livro na página trinta e seis e perdeu-se na leitura. Onze horas vestiu jeans, tênis e camiseta, foi ao supermercado e, meio-dia, apanhou as crianças no colégio. Depois do almoço levou as crianças para a escolinha e suspirou, aliviada. Finalmente podia descansar.

Carlão vendeu o último brinco de sua mãe e na esquina de sempre comprou uma dose de crack. Fumou e aliviou. Estava nervoso e preocupado com a prova de física do Vestibular, pois quase não tinha estudado. Será que ia levar pau?

Dom Pedro I terminou de fazer cocô, lavou-se na bacia e vestiu a túnica imperial. Entrou no gabinete, chamou seu ajudante de ordens e disse, entre um pigarro e outro, que tinha resolvido criar o poder moderador. – Avisa o Benjamim Constant hoje mesmo e ele que não me venha com teorias. O ajudante de ordens anotou tudo em seu bloco de notas e respondeu: – Pois não, Meu Rei.

Mildríades insistiu: – Quanto quer por ele? E o motorista: – Nada, minha senhora, não quero vender. Mildríades resfolegou e saiu rua afora, indignada.

Estou a fim de um boquete hoje, disse Clinton. – É pra já, meu Presidente – respondeu Mônica. – Então tranca a porta, minha ninfa.

– Ordenança, tire as minhas botas! – ordenou Gengis Kahn. Na mesma hora sua barraca esvaziou. Gengis Kahn passou a mão pelos pés cansados e cortou a palma na ponta da unha do dedão. – Merda! Os chineses vão pagar caro por isso. E derrubou a Grande Muralha da China em busca de uma chinesa que lhe cortasse as unhas.

Ele sabia que, cedo ou tarde, teria que sair do banheiro. Amarrou o que pode, passou gel nos cabelos, refez a barba pela quinta-feira, tentou evacuar mas estava sem vontade, lavou novamente o rosto, escovou outra vez os dentes, ajustou o tope da gravata, alisou o colarinho, escovou o casaco, amarrou o cordão dos sapatos, tossiu e assoou o nariz. Quando novamente sua mulher gritou, lá do quarto, que estava na hora, a voz dela já irritada de tanto esperar, resignou-se. Foi lá, assumiu a presidência e acabou logo com aquilo.

Quando finalmente expeliu uma pedra no rim e as cólicas passaram, Einstein inventou a teoria da relatividade. Há anos não sentia um alívio tão grande.

Eu tenho horror de sair de baixo do chuveiro, no inverno.

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