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01/06/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – De ponta cabeça

Um pedaço de mim guardei na saboneteira. Outro emoldurei na parede. O terceiro sobre a cama, embaixo das cobertas.

O resto, joguei na lixeira.

Que é o lugar do que não presta.

Na saboneteira foi a espuma de minhas mãos. Na parede o meu retrato. Sobre a cama, embaixo das cobertas, o meu sonho.

O resto, joguei na lixeira.

Depois peguei a saboneteira, o retrato e a lixeira e despejei sobre o meu corpo, embaixo das cobertas e desisti do meu sonho.

Ensaboado, emoldurado e acordado tirei meu corpo debaixo das cobertas e fui para a janela olhar, lá embaixo, o movimento.

O sonho era muito louco, nem valia a pena sonhar e, além do mais, não tenho saboneteira e nunca emoldurei meu retrato. As cobertas sim, pois o frio era de rachar e, lá embaixo, a rua estava deserta: não havia movimento.

A minha gravata vermelha, lá de dentro do guarda-roupas, só faltava falar e estava manchada de gordura.

“Homem de Deus!” – berrou o despertador – “está na hora!”. E lá me fui pegar um copo de água na cozinha, para tomar o remédio.

Depois pensei: o que é melhor, semiótica ou metalinguagem?

Semiótica não é uma doença visual como, à primeira vista (ou semivista) pode parecer, sinteticamente falando ela não se refere aos caolhos. Não. Semiótica e o estudo da linguagem, de qualquer linguagem e qualquer linguagem, para a semiótica, são os signos – não zodiacais – sinais, entende? Há uma linguagem numa lâmpada acesa que, se você estudar bastante semiótica, vai entender e, com sorte, até falar.

A metalinguagem, por sua vez, é a linguagem usada para descrever algo sobre outra linguagem.

Teoricamente, você usa a metalinguagem para descrever a semiótica que, por sua vez, utiliza a metalinguagem para descrever a si própria.

Ou não.

Naquele quadro em que Salvador Dali pinta a si mesmo pintando Gala de costas diante de um espelho onde ele pinta a si mesmo de frente pintando Gala de frente é um exemplo perfeito de metalinguagem que só pode ser explicado através da semiótica, desde que você se utilize, previamente, da metalinguagem, resultando num teorema cibernético da mais fácil compreensão onde Um menos Miau é igual a Triz.

Outro exemplo a mostrar como é simples a metalinguagem: o autor do romance discutindo, ao vivo e diretamente com seu personagem: – Você, Heitor, é loiro e alto – diria Virgílio. – Não, não, poeta, sou moreno e baixo – responderia Heitor.

Mais ou menos assim.

Refletindo, chutei meu gato de pelúcia contra a parede, gritei gol e decidi que semiótica e metalinguagem fossem solenemente para o inferno porque eu não gostava de nenhum dos dois.

E o telefone não toca, ninguém manda e-mail e há décadas não recebo um postal.

Algum doutor conhece um remédio para o fracasso? Uma pílula, gotinhas, topo até injeção na veia. Sabe o que é? Descobri que quem tem muito não tem nada, quem tem pouco não tem nada e quem não tem nada… esse é que não tem nada mesmo.

Nesse momento ouvi um motor, corri para a janela mas o carro já tinha passado. Continuei sem movimento para ver.

Peguei meu gato de pelúcia e pedi desculpas, coitado, chutado assim em vão.

Falando sério? Não tenho gato de pelúcia.

Estou mesmo é com saudade de sentir saudades.

Nada mais me dá saudades. Ninguém que eu queira rever, nada que eu queira comer de novo, nenhum livro para reler, nenhuma amada distante a me torturar.

Agora sim, um motor, luz de faróis, abro a janela, calculo, me jogo aqui de cima e caio bem no meio do caminhão do lixo.

Enfim sós.

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