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27/05/2011 / Paulo Wainberg

Nova carta ao Osmar

O Osmar, você já sabe, é o meu correspondente que não responde e não corresponde. Em torno dos sessenta anos, abandonou a cerveja porque, segundo diz, ela incha, e passou para o uísque. Na terceira dose fica sono e vai dormir. Vai ver é por isso que jamais me escreve. Solteirão convicto (não é gay), sua última namorada a valer usava saia tubinho e peruca.

Enfim, sem perder a esperança de uma resposta, aí vai a carta:

Querido Osmar.

Como eu já te contei, tenho um problema crônico com as mulheres: Gosto mais delas do que elas de mim.

Não sei a que atribuir o fenômeno, porque não tenho nenhuma restrição a elas. Podem ser bonitas, feias, gordas, magras, de qualquer cor e etnia, gosto de todas, jamais digo o que elas devem fazer e como devem pensar, sou sincero nos meus elogios que, diga-se de passagem, não tem outra motivação do que simplesmente elogiar, sem intenções escusas, sem cabotinice ou desejo de conquistas.

Quando elogio as mulheres é simplesmente porque gosto delas.

Eventualmente posso sugerir um estilo, uma cor de roupa, um penteado, visando minha apreciação estética, ainda que a distância, nada demais, pura sinceridade e, por que não?, afeto.

Elas, entretanto, por não gostarem de mim, simplesmente não me aceitam como eu sou: um homem puro que gosta das coisas boas da vida, não guardo ressentimentos e não tenho ódio por ninguém.

Quase sempre entendem errado, ou não entendem, sei lá, as mulheres têm, quando querem, dificuldade de compreensão. Quando acerto, não fiz mais do que minha obrigação. Quando erro, entro na categoria de fracasso total, irremediavelmente incompetente, me transformam em alguém que nunca faz nada certo, que nunca vai aqui ou ali, mesmo que eu tenha ido aqui ou ali na semana passada.

Você, meu caro Osmar, homem vivido, certamente sabe do que estou falando e, talvez por isto, tenha passado sua vida inteira sem levar as mulheres a sério, fazendo com elas apenas o suficiente para suas necessidades e caindo fora sem olhar para trás.

Infelizmente não sou assim. Mesmo quando caio fora, eu olho para trás.

Bem, esta carta, sempre na esperança de que você me responda, é mais um desabafo, uma coisa assim, meio Buñel, meio Almodóvar, compreende?

Mas não se engane, porque não vou deixar de gostar delas. Talvez eu mude um pouco o modo de mostrar isso, talvez passe a me expor um pouco menos, ficar reservado, entrar numa de misógino ou, o que parece ser uma ideia tentadora, aderir a você, assumir o uísque e nunca mais pensar nisto.

Com o afeto e a esperança de sempre, aceite meu sincero abraço.

Do seu amigo de sempre,

                                          Haroldo.

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