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25/05/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – De explicação estou até aqui!

Ouço por aí que Freud explica tudo, desde um sonho inocente até as taras mais horrendas.

Não concordo.

Sendo eu um estudioso popular das artes psíquicas e dedicado a pesquisas intensas no campo da “epistemologia esquizo-mental”, ramo científico que acabo de inventar, tenho autoridade suficiente para afirmar que existem muitas coisas, muitas mesmo, que Freud jamais explicou, e, se explicou, explicou errado.

Por exemplo: você vê uma borboleta com asas coloridas, amarelo, preto com rajadas azuis. Ela está voejando na sua frente e você, fascinado, não tira os olhos dela. De repente ela some, simplesmente desaparece, você olha para todos os lados, para cima e para baixo e nada, a borboleta parece que nunca existiu.

Como é que Freud explicaria isso? Diria que você imaginou a coisa e que, numa crise aguda de histeria, teve uma alucinação. A borboleta representava uma projeção da sua mãe, a única mulher que você realmente amou?

Faz-me rir, palavra de honra. Ou a borboleta existia, bateu asas e voou, ou você, louco de saudades da mulher amada, imaginou a coisa mais bela que lhe ocorreu para invocá-la, pensando em quanto ela gostaria de ver tamanha beleza.

Outro exemplo: você está numa praia pela primeira vez e resolve tomar uma caipirinha no primeiro quiosque que encontra. Enquanto espera que preparem a bebida, olha para um lado, olha para o outro e vê, esperando um pastel, um refrigerante ou apenas o troco, uma linda mulher. E se apaixona na hora, ali mesmo, sem apelação, dó ou piedade. E, sem pensar em mais nada, assim ungido, embriagado e possuído de amor, esquece tudo, sente-se santificado e descobre que toda sua vida foi uma preparação para aquele momento.

O que Freud diria sobre isso?

Não sei e não quero saber. E digo mais, se ele tivesse alguma coisa para dizer, por si mesmo ou por algum de seus profetas, tal como fuga da realidade, manifestação infantil ou princípio do prazer, eu riria na cara dele, deles. Responderia que eles não entendem nada de VIDA, de paixão, de acaso, de imprevisto e, acima de tudo, de emoção.

Paixão, meu jovem amigo, minha doce leitora, não se explica e não se discute. Paixão é o delírio da alma, a febre do coração, o latejar da existência. Dói mais do que qualquer dor e enaltece mais do que qualquer prêmio, quando satisfeita e correspondida.

Viver em estado de paixão, quem me dera. Viver sem ela, qual é a graça?

Nesta vida que nos cabe, a única que sabemos existir, há coisas boas e coisas ruins, já terá dito o padre de sua paróquia, o pastor de sua congregação, o rabino de sua sinagoga e, talvez, Freud e seus profetas. E vai-se levando a vida, aproveitando com as boas, sofrendo com as ruins. Você pode ir do começo ao fim dessa forma mas não vai escapar quando, no último segundo e prestes a exalar o suspiro final, de  sentir o imenso desperdício de jamais ter se apaixonado. E terminará qual um tolo arrependido, pranteado e logo esquecido.

Profetas de Freud! Adoradores de Freud! Ritualistas Freudianos! Dependentes de Freud! Ouçam o mundo, escutem a vida, deixem de lado as frases feitas, abandonem os dogmas irrefutáveis, abram suas mentes e parem de catalogar, enquadrar e etiquetar pessoas. E quando Freud explicar alguma coisa lembrem de mim, lembrem de pessoas como eu, os que não querem ser explicados.

A paixão é sublime porque exalta emoções dormentes e acalma angústias virulentas. Rejuvenesce as idades, desfaz os registros, entorpece os medos e, qual uma borboleta de asas coloridas, voeja, some e reaparece para que nós, como crianças que mal podem esperar para abrir o pacote do presente, possamos sobrar, ir além, florescer e, tal qual o rio caudaloso que as lágrimas do céu alimentam, transbordar.

3 comentários

Deixe um Comentário
  1. June Souza / Maio 25 2011 10:01

    Realmente, sem explicação. Belíssimo!

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    • mariza Wassan de Oliveira / Out 30 2011 17:20

      Paulo

      Há trinta anos atrás, fui procurar o Freud. Nem mesmo ele conseguiu me explicar….!
      Bjs .Mariza

      Gostar

  2. Juliana A B Arosi / Jan 31 2015 20:46

    Amigo, uma de minhas favoritas, sem dúvida. 🙂

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