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20/05/2011 / Paulo Wainberg

Voz na multidão

Sou uma voz na multidão e a multidão, todos sabem, pensa e age de forma muito diferente do indivíduo.

A multidão, por exemplo, adora um escândalo enquanto o indivíduo fica indignado.

A multidão ulula na hora da execução, no momento da tragédia, diante do terremoto, enquanto o indivíduo sofre com as perdas, a destruição, a morte e a tristeza.

Os vinte ou trinta milhões que fazem parte da sociedade culta adoram os escândalos diários que Brasília proporciona, mas o indivíduo, eu dentre eles, fica indignado.

Sou uma voz na multidão, vibrando com a desgraça e indignado com ela.

Sarney, que está – eu acho – há trinta anos no Senado, não sabe o limite que pode gastar em jantares de homenagem. Então gasta quase trinta mil numa noitada, enrubesce ao ver que se passou e enrubesce ao devolver. Devolveu porque alguém, dentre as dezenas de assessores, alertou. Caso contrário, não devolveria, afinal fazer homenagens com o nosso dinheiro é bem mais em conta, para ele, do que usar o próprio dinheiro.

Seu feudo, também conhecido como Estado do Maranhão, está em primeiro lugar no índice da miséria brasileira, mas ele, pobre homem, é senador do Amapá, terra dadivosa que o acolheu, numa manobra espúria para que ele pudesse continuar senador desta pobre república brasileira.

Palocci multiplicou seu patrimônio por vinte, durante os quatro anos em que foi deputado federal e manteve, ao mesmo tempo, uma empresa de consultoria.

Comprou um apartamento e pagou mais de seis milhões de reais. Dando consultas? Com o salário e as benesses da deputância?

A oposição, frágil e comprometida, resolve convocar o ministro para explicar, mas o governo e seus deputados aliciados, impedem.

Delúbio, recebido com festa nababesca, de volta ao partido, viveu como, nestes anos em que esteve afastado? Com que dinheiro ele sustentou a família, pagou as contas, foi ao cinema e cuidou do jardim? Tinha alguma emprego, alguma fonte de renda?

Volto a dizer que sou uma voz na multidão. Imagino um diálogo entre os expoentes da política, ambos falando dos respectivos ganhos e um leve toque de ameaça na voz: – Se você contar, eu também conto.

Porque é assim que soa, as acusações são tênues, parece que todos os parlamentares vivem sob um regime de chantagem implícita, há um limite para o que é possível afirmar porque, quem afirma, pode ser o próximo a ser acusado.

Como é possível, pergunta esta minha voz, perdida na multidão, que um político como o Palocci, que perdeu o cargo por ter quebrado ilegalmente o sigilo bancário de um servidor, que se elegeu deputado e montou uma empresa de consultoria, tenha enriquecido tanto em apenas quatro anos?

E como é possível que o Governo, que a Presidenta, que o partido, não queira que isto se explique e, pior, impede que explicações sejam cobradas?

O que me traz de volta ao Delúbio e seu triunfal retorno. Este indivíduo foi o grande operador do Mensalão. Por ele passaram os milhões e ele foi o encarregado da distribuição.

É o homem que sabe demais, o homem a ser temido, o homem que, se revelar tudo o que sabe, faz a casa cair e pouquíssimos sobreviverão.

Eu, esta tênue voz na multidão, repito que as mudanças que nossas instituições precisam, e nelas incluo os Três Poderes da Nação, não serão feitas de dentro para fora.

Há muito dinheiro em jogo, muita fortuna a preservar e muita riqueza a ser perdida se as coisas realmente mudarem.

Para que mudem nós, os vinte ou trinta milhões que formam a sociedade culta do país, devemos unir nossas vozes e formar uma grande multidão indignada, deixando de lado a complacência e a acomodação e partir para a salvação da nossa democracia, tão profundamente ameaçada pelo descaso, pela desfaçatez e pelo escárnio com que agem executivos, magistrados e parlamentares.

É possível fazer um país honesto, basta querer, basta mudar.

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