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11/05/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Sarcófagos

A marmelada é coisa boa: Significa que você aprecia o doce ou gosta de uma transa pegajosa?

Você é narrador de futebol: A bola é lançada para a direita, Cafu corre, chega antes do adversário, finta, recua a bola para Lúcio, Lúcio devolve para Cafu, Cafu chega à linha de fundo, atenção, novo drible, Ronaldinho está na área, Cafu cruza, Ronaldinho de cabeça e Goooool do Brasil. Que jogada! A qualidade do time brasileiro é insuperável, Cafu deu um passe milimétrico.

Cafu deu…?

 

Você é alpinista escalando a montanha. Após sacrifícios, chega ao topo e deslumbra-se com a façanha. Anota no seu diário: Aqui estou, no alto da montanha, olhando para o mundo lá embaixo. Atingir o cume proporciona um prazer insuperável!

O cume proporciona…?

 

Cacófatos imperdoáveis, meu amigo.

 

Não sei se vocês sabem, cacófato é a forma viciosa de linguagem resultante da união de sons desagradáveis ao ouvido, ou cuja assonância dá idéia de sentido diferente, em geral ridícula ou agressiva ao decoro e aos bons costumes, o que não deixa de ser um conceito bastante conservador. Para o meu gosto, é verdade.

O termo cacófato tem tudo para ser um cacófato e, só não é, por se tratar de uma única palavra: Horrorosa, escacofática e fuleira.

Mãos, temos duas. Como falar de uma, sem praticar um cacófato imperdoável: uma mão?

Antigamente, nos primórdios do século XX, quando os cuidados com o vernáculo atingiam limites de soberba por parte de críticos literários, pedantes e frustrados de então, alguns escritores usavam o artifício: u’a mão, ridículo e tão inexistente, na língua portuguesa, quanto a palavra que inventei no parágrafo anterior.

Tentavam evitar a avalancha crítica, irônica, sarcástica, minudente e pretensiosa que, sobre seu texto cairia, caso escrevessem, hereticamente: Uma mão.

“Com uma mão” é a glória do cacofatismo, só superada por “Comi um mamão”, fruta aliás bastante saudável no café da manhã e que recomendo fortemente.

Sob o ponto de vista sartriano: O ser e o nada estão tão (olha o cacófato imperdoável aí!) próximos que se confundem. Existência e essência não se dispensam: Cacófato imperdoável, sendo ‘imperdoável’ a essência da existência do cacófato.

O cacófato é, por definição, imperdoável. E como perdoar um cacófato, valha-me Deus?

Sob a ótica da lógica formal, podemos construir silogismos verdadeiros e falsos silogismos:

“Toda a pedra é dura. Eu sou uma pedra. Logo eu sou duro”. Silogismo perfeito, a premissa maior, a premissa menor e a conclusão correta.

Porém: “Toda a pedra é dura. Eu sou duro. Logo eu sou uma pedra” é o falso silogismo.

Por que? Porque a premissa menor ‘eu sou duro’, não é universal, isto é, existem muitas coisas duras, além da pedra, então como concluir que, sendo duro, sou uma pedra? Poderia ser uma madeira dura, um vidro duro, poderia utilizar – ó horror! – a gíria,  para definir minha situação financeira, poderia estar me referindo a um infindável número de coisas.

“Todo cacófato é imperdoável. Eu sou um cacófato. Logo, eu sou imperdoável”. Silogismo perfeito.

“Todo cacófato é imperdoável. Eu sou imperdoável. Logo, eu sou um cacófato”. Falso silogismo.

Eu posso ser imperdoável por outras coisas: Não levantar a taboa da privada; escrever bobagens múltiplas; esquecer a chave dentro do porta-malas. Tudo isso e muito mais me torna imperdoável e, nem por isso, me faz ser um cacófato.

Porém, uma vez cacófato, serei irreversivelmente imperdoável.

Posso encher páginas e páginas com exemplos de verdadeiros e falsos silogismos e outras tantas páginas com exemplos de cacófatos imperdoáveis, o que não é nenhum mérito, qualquer um pode fazer isso. Aliás, eu nem estaria falando neste assunto, não fora ter sido gentilmente provocado por você sabe quem.

Concordo: é melhor não cometer cacófatos imperdoáveis do que cometê-los. Concordo, é melhor revisar o texto com cuidado, antes de torná-lo público. Entretanto, cacófatos imperdoáveis acontecem, eles são sorrateiros, vivem à espreita para pegar o escriba de surpresa, apanhá-lo pela garganta e trucidá-lo. Isto é verdade, nem você pode negar.

Por essa razão, peço desculpas por todos os meus cacófatos imperdoáveis, passados, presentes e futuros. Escritores, ao contrário dos cacófatos, podem ser perdoados, talvez.

Chega o momento culminante: Responder ao que todos se perguntam:

–  O que o título desta crônica – Sarcófago – tem a ver?

 

Respondo:

 

– Nada! Absolutamente nada! É outra palavra feia que quase rima com cacófato.

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