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06/05/2011 / Paulo Wainberg

Desabafo

A volta de Delúbio, ícone do MENSALÃO, significa muito mais do que a decadência moral de um partido, sem considerar a hipótese de uma chantagem explícita.

Ela revela que a classe política, como um todo,  acredita que nós, brasileiros, somos ignorantes, irresponsáveis e desonestos.

Infelizmente, os políticos têm razão, somos tudo isto e muito mais.

Nunca antes neste País tivemos mais de cento e noventa milhões de habitantes, dos quais dezesseis milhões vivem na miséria absoluta.

Dos cento e setenta milhões que sobram, podemos considerar que temos cerca de vinte a trinta milhões que fazem parte da sociedade culta, isto é, pessoas como nós, com boa formação e boa informação. E mais ou menos cento e trinta milhões de pessoas vivem no limbo intelectual dos que lutam, trabalham e ganham para sobreviver e se contentam com as vidas paralelas das novelas e dos BBBs.

Quem anda  na região do Centro das grandes capitais brasileiras vê uma população apressada, pobre, feia, mal vestida e ar doente, em busca de solução para problemas cotidianos, caras emburradas e brabas, expressões de desalento e perplexidade, sujeira, confusão e tristeza.

É para esta massa desmotivada e desmemoriada que os políticos falam, é para eles que Lula dirigiu seus mais messiânicos discursos, é com eles que os parlamentares contam para acessar a corrupta Brasília e seus Poderes corruptos.

Não é à toa que se perpetuam Sarneys, Ramalhos, Calheiros, Simons, Magalhães, Inocêncios e o quase milhar de indivíduos, amparados pelo voto das pessoas ignorantes, pobres, tristes e desonestas que somos todos.

Assistir, ao vivo, sessões do Congresso ou de assembleias legislativas estaduais, é suficiente para ver o tipo de gente que lá circula, com suas gravatas e ternos de mau gosto, seu Português errado, seus sotaques escrachados, seus deboches e falsas indignações.

Não é à toa que, dos mais de seiscentos parlamentares em ação, ouvimos falar de meia dúzia e, na maioria das vezes, falar mal.

Assistir à uma sessão do STF é conviver com um cenário de vaidades escrotas, disputas de beleza, escárnios e gozações, num linguajar solene e ininteligível para o grande público.

Porém, não são os milhões da miséria absoluta e os do limbo que assistem isto. Somos nós, os vinte ou trinta milhões cultos, quando nos damos o trabalho ou estamos a fim de ficarmos irritados.

Logo, não há motivo para o mosqueiro brasiliense preocupar-se com a nossa opinião e o nosso sentimento, nós da sociedade culta.

Lá eles sabem, desde criança, que latimos mas não mordemos e, salvo uma ou outra escoriação leve, quando a indignação individual chega ao limite, eles fazem tudo, como e quando querem.

Eles sabem que escândalos menores, como comprar carros novos para senadores, como Renan ir para a comissão de ética, como terem mais de vinte mil pessoas trabalhando para eles, como gozarem mil vantagens, como transformar o pulgueiro em balcão de negócios, logo saem da mira da imprensa, substituídos por outros escândalos menores que logo perderão impacto, sucessiva, sucessiva e sucessivamente.

Não há democracia sem Parlamento. Porém é muito frágil a democracia quando o parlamento é corrupto, nem é democrático o país com mais de cento e noventa milhões de pessoas das quais apenas vinte ou trinta milhões têm condições de pensar.

Os analistas políticos e econômicos falam com palavras que a grande massa não compreende e não quer compreender, produto interno bruto, renda per capita, coalizão, medida provisória, pauta emperrada, termos que, para zeladores, domésticas, bombeiros de postos de gasolina, pequenos e grandes vigaristas, camelôs e o manancial maltratado de pessoas sobreviventes do país são tão estranhos que poderiam ser usadas em mandarim ou japonês.

Durante a ditadura, os ditadores deram aparência democrática ao Poder que exerceram a ferro e fogo.

A aberrante Constituição Cidadã, obra e graça dos políticos que viveram da Ditadura, dela se beneficiaram e com ela compactuaram, manteve a farsa.

Hoje, no Brasil, de democracia temos algumas vantagens, aparente liberdade de imprensa (desde que não afete interesses dos anunciantes), direito de expressão, direito de criticar e de, como estou fazendo, ficar indignado.

Indignar-se é preciso, é preciso mudar, elaborar uma nova Constituição que seja eficaz e aplicável e que, de uma vez por todas e com clareza, exija dos homens públicos duas mínimas qualidades para que continuem homens públicos: Honestidade e integridade.

One Comment

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