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04/05/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Conto de inverno: a falsa cultura

Neves conheceu Inês durante o velório da Lilica. Foram apresentados por Vaz, cunhado de Eça, o viúvo.

Neves ficou impressionado com a beleza de Inês que se impressionou com a vivacidade de Neves e seus grandes olhos negros, misteriosos e sedutores.

Enquanto o velório transcorria sem incidentes, pois a morte de Lilica já era esperada e, mesmo assim, Eça chorava muito, os dois não saíram um do lado do outro, conversando animadamente ao lado da lápide de um morto enterrado em espaço nobre, no grande jardim cemiterial.

Quando se deu o sepultamento propriamente dito, Inês que era muito amiga da filha de Lilica, deixou escorrer lágrimas durante a fala sacerdotal. Solícito e confortador, Neves apressou-se em apertar a mão de Inês, mostrando solidariedade naquele momento de dor e aproveitando o ensejo para ocupar o primeiro espaço da intimidade futura. Mantendo ar compungido, próprio à solenidade da ocasião, Neves cumpria a obrigação formal de estar ali, pois nem conhecia Lilica. Era amigo de Vaz, o irmão, em quem viera dar um rápido abraço de condolências, dar uma voltinha para mostrar que viera e, em cinco minutos no máximo, ir embora.

Inês mudara totalmente seus planos.

Após alguns meses de namoro foram morar juntos, ela no apartamento dele e, quando ela engravidou, resolveram casar.

Vaz foi o padrinho e a filha de Lilica a madrinha, durante a bonita cerimônia celebrada num templo que tinha muitos significados de infância para Inês.

Durante a festa Eça, recém recuperado da perda da esposa, encheu a cara e passou a assediar as amigas da noiva, todas com idade para serem suas filhas, dançando com elas e, como gostava de pensar, tirando uma lasquinha.

Tudo sob o olhar benevolente de Vaz que muito desejava que o cunhado refizesse a vida e saísse daquele marasmo em que se enfurnara desde o óbito.

Os anos passaram rapidamente e o amor entre Neves e Inês murchou qual bexiga vazia, transformando-se, ainda mais rapidamente, em raiva comum.

Toleravam-se em nome dos dois filhos a quem não queriam causar dano com uma separação. Porém o ambiente doméstico era nada agradável, na verdade torturante, eivado de brigas, gritos, caras amarradas, acusações fundamentais, rancores acumulados à flor da pele para virem à tona, caras feias, falsas indiferenças e grandiosos silêncios acusatórios.

Porém não se separavam para não causar dano aos filhos.

Os filhos, qual camisas de Vênus usadas soltas no pasto, rebolavam do jeito que dava para escapar das patadas, coisa que, na maioria das vezes, não conseguiam.

Na tentativa de resgatar antigos sentimentos buscaram ajuda através de uma terapia de casal. O único conselho que obtiveram do terapeuta, após alguns meses de consultas semanais, foi que a melhor coisa para eles era a separação, pois nada tinham em comum que valesse a pena.

Mas não se separaram para não causar dano aos filhos.

Quando o mais velho chegou em casa dopado e Inês encontrou um tijolo de maconha na mochila dele, passada a surpresa, a perplexidade e a fase dos sermões, castigos e exigências de promessas definitivas de nunca mais, solertemente atendidas pelo filho, atiraram-se, Inês e Neves, ao conflito mutuamente acusatório sobre a responsabilidade pelo ocorrido, cada um deles municiado por centenas de exemplos concretos sobre má educação, desinteresse, ausência, desagregação, super-proteção, abandono, falta de modelos, excesso de modelos, cada um dos exemplos acompanhado do inefável “eu te avisei” explodindo nas respectivas caras como ovos podres ou pedaços de requeijão mofados.

Neves desejava ardentemente que Inês morresse. E vice-versa.

Poucos anos depois, Inês adoeceu. Câncer no cérebro.

Ao ver que seu desejo estava prestes a se concretizar, Neves foi tomado por súbita e inesperada emoção. O que ele havia feito? Como fora capaz de maltratar assim a mulher de sua vida? De onde surgira tamanha crueldade, ele que sempre se julgara sensível e tolerante, como tinha sido capaz de infringir tamanho sofrimento a Inês, ela, a mulher que, agora se dava conta, tanto amava.

A doença evoluiu rapidamente e nada havia a fazer. Neves tratou de recompensar Inês, dedicando-se dia e noite, pródigo em carinhos, gestos de atenção e palavras de amor que ela escutava sem responder.

Minutos antes do suspiro final, como numa concessão à paz, Inês aceitou a mão de Neves na sua e apertou-lhe os dedos, uma única carícia a redimir a vida que levaram, não menos do que infernal.

Durante o velório, na mesma capela onde haviam se conhecido, Neves chorava em desespero, mortificado, trêmulo, o rosto inchado e pálido, monumental caracterização de uma dor profunda.

Amparado por Vaz, Neves recebeu o abraço de Eça que, com a vida refeita, mulher nova pendurada no braço, disse que o tempo  tudo cura, mas Neves, como numa ladainha, repetiu sem parar, até o último momento cerimonial, a última pá de terra lançada sobre o caixão, o último amem sacerdótico, que era tarde, que agora era tarde, como se recitasse um verso, agora é tarde, Inês é morta.

Neves zanzou, andou por aí, os filhos largados à própria sorte, atirou-se ladeira abaixo sem ligar para lanhos e lacerações, enfurnado em si mesmo e na bebida, dormindo em prostíbulos e depois, nas portas de bares do pior bairro da cidade.

Foram em vão as tentativas dos filhos, de Vaz, da filha da Lilica, agora uma senhora solícita, de Eça que se determinara a ser um exemplo de salvação, de socorrer Neves e tirá-lo da mondonga em que investira a totalidade do seu eu.

Morreu de frio, acocorado no terceiro degrau à direita da escadaria da Catedral onde só foi constatado que estava morto, dezesseis horas após o óbito, graças a um garoto que foi buscar a bola que ficou presa entre as pernas dele e começou a chorar de medo, razão pela qual sua mãe, achando que o mendigo estava molestando o filho, arvorou-se em furiosa paladina e só não desferiu-lhe demolidor ponta-pé, enquanto puxava o filho por um braço, porque percebeu os olhos de Neves, abertos e sem vida.

Ainda hoje, quem passa pela solene escadaria da Catedral comenta, apontando para o terceiro degrau à direita, que aí morreu Neves.

4 comentários

Deixe um Comentário
  1. June Souza - BH/MG / Maio 4 2011 13:50

    Nooossa, que história triste… quanta condenação.
    1a. terrível condenação: permitir a morte do amor, afinal, amar é uma opção que fazemos. (assim como a opção de deixar de amar).
    2a. terrível condenação: (uma vez o amor assassinado) ter que aturar viver ao lado de alguém que causa tanto desgosto. E ainda atribuir aos filhos o peso de viver tamanha infelicidade. Covardia!
    3a. terrível condenação: depois de viver uma vida mediocre, arrepender-se tarde demais para recomeçar.
    Só poderia dar na morte dos dois mesmo, aliás, eles já tinham se matado vivos.
    Muito triste… mas como sempre, um excelente texto!

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    • Paulo Wainberg / Maio 4 2011 16:04

      De modo algum! Amor não é uma coisa que se escolhe. O amor acontece quando menos esperamos e, curiosamente, quando mais o procuramos, não acontece. A história é triste, sim, porque tristeza também faz parte da vida. É uma história de amor desamado.

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  2. June Souza / Maio 4 2011 16:15

    Hummm, temos aqui um impasse. Na minha percepção, as paixões sim acontecem inesperadamente, são até deliciosamente irracionais. Mas o amor… é uma escolha (e diária). Podemos fazer felizes escolhas, não acha?

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    • Paulo Wainberg / Maio 4 2011 16:22

      Como se pode escolher um amor diariamente? Diariamente fazemos concessões, abrimos mão, acomodamos coisas, convivemos. Vá lá que seja, no dia a dia, o amor é algo assim… enfadonho. Concordo com relação às paixões.

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