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28/04/2011 / Paulo Wainberg

Paixões cotidianas

No final do dia, Clarinha entrou no ônibus, lotado como sempre, para ir para casa.

Empurrando e sendo empurrada, finalmente acomodou-se, em pé, segurando a barra transversal, para garantir o equilíbrio durante o percurso. Mal notou Haroldo, ao seu lado, fazendo a mesma coisa.

Depois de alguma espera e quando não cabia sequer uma mosca dentro, o ônibus deu a partida sem dó nem piedade, provocando uma convulsão entre as trinta e cinco pessoas amontoadas.

Qual melancias na carruagem, os passageiros trataram de se acomodar, empurrando mais um pouco, um passinho à frente, outro de lado, ocupando os menores espaços, pois o motorista não fazia cerimônia e enfiava o pé no acelerador e no freio com a mesma força, enfrentando o trânsito cerrado daquele horário.

Haroldo viu-se às costas de Clarinha, sua mão ao lado dela, na barra transversal. Cuidou para não encostar nela, mesmo que a distância entre eles fosse de poucos centímetros.

Clarinha olhou para trás e deu um sorriso conformado, de quem entende o problema, sorriso este que abalou Haroldo. E a ela também.

Sem mais nem menos, uma faísca uniu os dois corpos, que permaneceram separados por centímetros. Como se uma onde de energia, sensual, tensa e emocionante unisse os dois à distância. Haroldo sentiu isto de imediato e Clarinha, olhando fixamente para a frente, deixava inundar-se da sensação, nova ou há muito esquecida.

O ônibus seguiu o percurso, passageiros embarcaram e desembarcaram e eles permaneceram imóveis, ligados pela corrente fulminante que seus corpos produziam, um no outro.

Não viram o tempo passar e levaram um susto quando o condutor anunciou: – Fim da linha.

Ambos haviam perdido os pontos de descida e estavam praticamente sozinhos dentro do ônibus, paralisados, sem se tocar mas presos por um calor ardente, intenso e fulminante.

Sem jeito, Clarinha desceu e Haroldo foi atrás. Na calçada ele se aproximou:

– Oi, desculpe eu… não sei o que houve..

– Sim?

– É que, sei lá, você me… Olhe, meu nome é Haroldo.

– Muito prazer, Clarinha. E estendeu a mão.

Haroldo segurou a mão dela e aí sim, dez mil watts de eletricidade percorreram a alma de ambos, presos pelas mãos, incapazes de se separar e de tirar os olhos um do outro.

Então Clarinha, delicadamente, tirou a mão, os olhares ainda fixos.

De repente uma frio esquisito envolveu os dois. Como se uma nuvem recheada de neve houvesse pousado sobre eles, extinguindo as labaredas de emoção que ardiam em suas almas.

Clarinha apertou a bolsa contra o estômago e Haroldo enfiou as mãos no bolso.

Olharam ao redor, sem saber onde estavam, nenhum deles jamais tinha ido ao fim daquela linha.

– Vamos pegar um táxi – disse Haroldo – deixo você em casa e depois vou a minha.

Sentados lado a lado, no banco traseiro, não trocaram uma única palavra. Não tinham o que dizer, não sabiam exatamente o que havia acontecido.

Clarinha entrou no seu apartamento completamente exausta. Mal cumprimentou o marido e os filhos e, alegando uma forte enxaqueca, foi direto para o quarto. Sem tomar banho ou escovar os dentes, tirou a roupa, vestiu a camisola e caiu na cama, totalmente exaurida, sem forças para nada, caindo num sono profundo e pesado.

Haroldo, chegando em casa, beijou sua esposa, fez um afago no filho de seis anos, avisou que estava exausto, não queria jantar, precisava dormir que o dia havia sido de amargar.

Na manhã seguinte, Clarinha acordou tomada por uma estranha letargia. Era como se tivesse tido um orgasmo sem gozo. Normalmente, após um orgasmo, ela ficava agitada, alegre, quase hiper-ativa. Desta vez, sentia-se pesada, os movimentos lentos, como se estivesse dentro d’água.  

Preparou o café da manhã para o marido e os filhos e quando eles saíram, foi para o chuveiro, onde permaneceu um longo tempo sob a água tépida.

Depois vestiu-se e foi para o trabalho.

O dia não passava. Ela ansiava pela hora de ir para o terminal de ônibus, encontrar Haroldo e reviver a sensação aguda da véspera.

Desta vez, não foi o acaso, ambos se posicionaram da mesma forma e esperaram. Esperaram. E nada aconteceu. A magia de ontem não se reproduzia, eram passageiros comuns, amontoados num ônibus lotado.

Clarinha, na ânsia de recuperar as sensações, moveu-se levemente, encostando-se na virilha de Haroldo.

Ele aceitou o convite e encostou-se definitivamente nela, os dois se esfregando em busca da eletricidade, em busca do coração disparando, em busca da ardência.

Mas nada aconteceu.

Deram-se conta da grosseria da situação e, envergonhados, separaram- se.

Haroldo deus um jeito de sair de trás dela.

Cada um desceu no seu ponto.

Clarinha entrou e beijou os filhos carinhosamente. Mais tarde, na cama, procurou o marido, provocante e sensual, fizeram amor intenso e mais tarde, deitada com os olhos fechados, algo estranho aconteceu.

Ela sentiu uma luz piscar em sua mente, como se fosse um sinal luminoso vermelho, anunciando a contagem regressiva de uma bomba-relógio.

Tentou identificar o sentimento, o que seria aquilo, justo ela que estava feliz, possuía uma família feliz, que amava o marido e os filhos, o que significava aquele alerta, aquele alarme?

Assim adormeceu.

Na manhã seguinte, ao acordar, estava tudo claro em sua mente. O episódio no ônibus revelava uma Clarinha insuspeita, uma que estava escondida, amortecida pelos prazeres cotidianos e que, finalmente, vinha à tona.

Clarinha sabia, agora, que queria muito mais do que tinha. E que tinha muito mais para dar.

Naquela noite, dentro do ônibus, procurou Haroldo:

– Quem sabe a gente desce e vai tomar alguma coisa num bar?

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