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27/04/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Coisando

Quando a coisa aperta é melhor sair de perto.

A coisa, para quem não sabe, pertence ao obscuro e complexo mundo das incompreensões.

A coisa circula no âmbito do imponderável, quando a coisa é invocada tudo se compreende e nada se explica.

Quem não diz coisa com coisa diz tudo e nada ao mesmo tempo o que, francamente, não significa, mas diz muito.

As coisas da vida nos colocam diante do inevitável, revelam nossa resignação e a esperança de que, algum dia, as coisas melhorem.

A coisa é também a síntese dos grandes volumes, das quantidades indefinidas, da miscelânea de objetos.

Expressa também desejos ocultos, intenções camufladas e projetos confusos:

– Vou deixar minhas coisas aqui neste canto. É só por uns dias…

A quantidade de coisas contidas nas coisas que vão ficar naquele canto é imensa e ‘por uns dias’ é um eufemismo a esconder a verdade:

– Quando der eu venho buscar.

O drama anunciado para o dono daquele canto, quando precisar dele para guardar as próprias coisas, faz parte do repertório interminável da coisa.

– Sinto uma coisa, aqui dentro, toda vez que olho para você.

– Sei lá, quando você me toca me dá uma coisa….

– Não incomoda menino! Que coisa!

– Ih, é melhor sair de perto. Ela hoje está com a coisa.

– Era uma coisa enorme, indefinida, foi chegando, chegando…

– O que você quer comer?

– Qualquer coisa.

– Ontem vi a Laurinha no carro do Gerson. Aí tem coisa.

Quando você se depara com a coisa, pode crer, sua vida não será a mesma. A coisa tem esse poder, renovador e destruidor, e, diante da coisa feita, não adianta espernear: é assim que são as coisas.

A coisa inflou-se de tal modo que não é mais suficiente para a própria diversidade

Criou-se a loisa para que você possa, nas suas divagações, perder-se entre coisas e loisas.

Quando as coisas se encontram há sempre o risco de uma gravidez indesejada.

Entre uma coisa e outra vai se levando a vidinha porque sempre tem uma coisa para atrapalhar.

No mundo atual, que se explode o tempo todo, o melhor é olhar a coisa de frente e, quanto mais se faz isso, mais a coisa aperta.

Para encerrar uma discussão, com certeza você já disse:

– Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

E seu interlocutor, com ar grave, concorda, ainda que nada se conclua da afirmação. Ocorre que, quando o debate chega a esse ponto, nada mais há para ser dito.

É uma frase excelente para resumir o nada.

Reconheço que gostar de uma coisa e odiar outra coisa é um atributo humano, por exemplo:

– Não estou gostando dessa coisa –, referindo-se a um massacre na favela.

Ou:

– A coisa foi extraordinária –, falando na vitória do seu time.

A coisa é a coisa é a coisa é a coisa dá um refrão para samba-enredo, mas ninguém ousa utilizar, pois com a coisa não se brinca.

Por fim, definitivamente, de forma categórica, sem lero-lero, tititi ou blábláblá, recomendo, meu amigo, que vá saindo de baixo, que a coisa está cada dia mais preta.

2 comentários

Deixe um Comentário
  1. June Souza - BH/MG / Abr 27 2011 15:10

    Mas que coisa, hein?! Sempre uma delícia de texto!!! Parabéns!
    A “coisa” aqui tem outro nome. A chamamos de trem que pode ser um trem danado de ruim ou um trem bom demais da conta.
    Mas como você mesmo disse “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…”

    Gostar

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