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20/04/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Chegando perto

Dia desses entrei num bar. Não era um bar, assim refinado ou sofisticado. Era mais um boteco, um botequim de arrabalde, com mesas e cadeiras de metal, sem garçom, um balcão sujo e um atendente não menos, por trás dele.

E moscas mosqueando no ar denso.

Sentei e pedi uma cerveja gelada que era o que eu mais queria, naquela hora. Na minha frente, à direita, tinha um  barbudo, provavelmente operário da construção civil desempregado, uma garrafa de cerveja à frente e um olhar perdido por aí.

O atendente trouxe a minha cerveja, serviu meio copo (sujo, mas não liguei), largou a garrafa sobre a mesa e voltou ao seu posto. Emborquei a bebida, que não estava bem gelada, e lambi o lábio, tirando a espuma.

Era um daqueles dias que, quanto pior, melhor. Eu precisava me punir, eu tinha que me castigar pelos meus desejos indecorosos, pelas minhas falhas contumazes, pela desídia constante e pelos fracassos permanentes.

Era um daqueles dias em que o fundo poço estava a meio metro de distância, coroado de imundície, e eu continuava caindo. Em duas talagadas, esvaziei a garrafa e, com um gesto, pedi outra, esperando os efeitos do álcool. Para acelerar o resultado solicitei uma cachaça bem forte que ingeri de um gole só, esperando a dormência calmante para aplacar a mente e refrescar os pensamentos que, felizmente surgiu, depois de mais um copo da cerveja meio quente.

Era um daqueles dias em que não adiantava falar com ninguém, não adiantava fazer nada, a única coisa lúcida que restava, depois de embriagado, era aquele bar sujo, com moscas voejando, cerveja morna e um operário de olhar perdido por aí.

Não foram as trapaças da sorte nem as graças da paixão que me levaram àquele bar. Também não foram os negócios, as responsabilidades, os amores, as perdas, as esperanças, o futuro, o passado e o presente. Não mesmo.

Eu estava ali prestando uma homenagem à minha fragilidade, ao desejo irracional de rastejar, de chafurdar no fundo do poço. Só para ver como é.

Terminei a segunda garrafa e pedi outra, com mais um copo de cachaça que bebi e virei o fio. A tontura e o enjôo assumiram o comando e consegui, cambaleando, chegar ao lugar que o atendente chamava de banheiro, onde vomitei tudo, inclusive os últimos dias, o último ano e a noite de ontem.

Voltei para minha mesa no momento em que o operário da construção civil pagava sua cerveja e saia do bar. Me sentia melhor, aliviado embora um pouco tonto. Observei, ao olhar no meu íntimo, que o fundo do poço estava ali, a centímetros. Era possível perceber os movimentos da sujeira e da podridão se acomodando e, sem muito esforço, sentir o odor fétido que dali exalava.

Comandei outra cerveja e outro copo de cachaça. O atendente meio que me olhou de lado, não seria eu um contumaz beberrão a criar problemas nos bares da vida. Mas me serviu assim mesmo e eu, que não estava a fim de desistir, emborquei tudo, a cachaça e a cerveja, com rapidez e voracidade. Eu estava louco para sentir a lama do fundo do poço, passar meus dedos e impregná-los de sujeira. Enfiar meu rosto na imundície e respirar os odores, sentir o gosto nojento, esticar-me na podridão e, finalmente perceber que eu nada mais tinha a perder.

Era essencial, entende? Fundamental conhecer o abismo de almas perdidas, experimentar a decadência absoluta da qual só se sai para cima, compreender o desastre, vivenciar a tragédia máxima, saber o que significa morrer em vida.

Não consegui.

Acordei no hospital com uma agulha enfiada na veia e o soro entrando nela. Minha fragilidade foi mais forte do que eu e, antes de percorrer os milímetros finais que me separavam do fundo do poço, desmaiei.

Mas vou tentar outra vez.

One Comment

Deixe um Comentário
  1. June Souza - BH/MG / Abr 22 2011 22:08

    “Era essencial… conhecer o abismo de almas perdidas…”
    Penso que só esse sujeito não sabia que o poço já estava com a boca escancarada para engoli-lo. A lama já estava misturada a sua existência, enfim, será que agimos assim? Será que achamos que o poço está distante sem perceber que já habitamos nele? Ou, imaginamos estar dentro do poço sem saber que ainda muita lama por vir?

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