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18/04/2011 / Paulo Wainberg

Querem proibir o e-mail

Li no jornal: o Deputado Federal Aldo Rabello, líder do novíssimo Partido Comunista, está fazendo um projeto de lei para proibir o uso, por escrito, de palavras estrangeiras no Brasil.

Ideia magistral, como é que não pensei nisso antes? Como é que outros deputados e senadores não pensaram nisso antes, neste País? Há quinhentos e onze anos o Brasil vem incorporando essas horrorosas palavras em inglês, francês, alemão, japonês, italiano, causando gravíssimos danos à função social da língua portuguesa e ninguém fez nada!

Como se sabe, a língua pátria é condição necessária para a formação de uma nação. Entretanto, ao longo dos séculos, invasores de língua querem retirar nossa identidade, introduzindo solertemente suas estrangeiras palavras em nossos textos, abalando de forma radical o nosso nacionalismo que, finalmente, graças aos ideais comunistas do ínclito deputado, será doravante salvo.

Imaginem a alegria que sentiremos nós, brasileiros, quando formos proibidos de escrever Internet, substituindo o terrível termo pelo brasileiríssimo Entre a Rede.

O Twitter será eliminado, pois não há palavra para ele, em português.

E-mail? Minha querida, recebeste a correspondência eletrônica que te enviei ontem?

Você nunca mais manejará um mouse e terá, para todo o sempre, um camundongo em sua mão.

O locutor não gritará o horrendo gol, que será substituído por… por ‘a esfera ingressou na área posterior às traves e o travessão’.

Sua casa não terá mais ladrilhos e sim pequenos pedacinhos de pedra colorida.

E isto que estou simplificando, há situações muito mais complexas que o nacionalismo deve proteger a todo o custo, quando se trata de defender a língua mãe.

Ai de quem se atrever a digitar marketing no trabalho de conclusão de concurso. Um bom e verdadeiro brasileiro substituirá a palavra alienígena por algo bem mais simples, como ‘a estrutura de divulgação, interação, empatia e divulgação das atividades mercadológicas visando dar conhecimento de produtos e atividades específicas ou gerais’.

Se um escritor como eu descrever a despedida de seu personagem francês com um ‘au revoir’, será imediatamente preso!

E não tomarei mais seu tempo com exemplos. Passo a identificar a motivação que levou o parlamentar a conceber um absurdo tamanho.

A primeira coisa que me ocorre é que ele não tem mais nada para pensar. Absolutamente nada. E solidário com seus pares parlamentares, que também não pensam em nada além de negócios rendosos, resolveu ocupar-lhes a mente.

Imagino nossas Casas Legislativas lotadas, em sessões solenes e intermináveis, onde nossas excelências debaterão a matéria à exaustão, estudando, vernáculo a vernáculo, o que pode e o que não pode ser escrito neste país.

Pense nos puristas parlamentares, exultantes com o debate, revelando seu extraordinário pensamento, as linhas de raciocínio, os apartes pro bono (acabo de me arriscar, escrevendo em latim), os a favor, os contra, um espetáculo brasileiro de democracia, não importa que a corrupção corra solta e que mais de sete mil pessoas trabalhem para oitenta senadores, ganhando o salário pagos por nós, que odiamos palavras estrangeiras escritas por incultos professores, artistas, jornalistas, poetas, escritores, filósofos e outros entreguistas que assolam a Nação.

Perceba a grandeza do projeto!

Outro motivo que pode ter levado o velho Aldo a conceber a coisa pode ser a arteriosclerose, palavra que nem sei se brasileira é.  

Imaginando-se, por confusão mental, estar sob a influência (ou domínio) do Império Romano e percebendo que o Latim virou latim vulgar, aquele falado nos países conquistados, misturados com as línguas pátrias, entrou em crise de nervos.

Esquecendo-se de que o Português deriva do latim vulgar, quer o nobre que preservemos, como se fôssemos uma raça, a pureza absoluta, abolindo da nossa escrita tudo aquilo que não for contemplado na língua de Virgilio.

“Mensalão”, por exemplo, é permitido?

Você, garota, jamais seja fashion. Arrisca-se aos piores rigores da lei.

Enfim!

Um País como o nosso, sem problemas, onde as instituições funcionam como um relógio suíço, a honestidade é absoluta, escândalos não existem, crimes não são cometidos, a segurança é perfeita, as estradas são ótimas, a educação é a melhor do mundo, a Saúde Pública é maravilhosa, o sistema político é exemplar, o problema social não existe e a riqueza é distribuída com absoluta justiça, tem mesmo é que se preocupar com palavras estrangeiras.

Eu, olhando aqui debaixo, já estou me preparando para nunca mais escrever non sense. Corro o risco de ser condenado a não sei quantos anos de prisão.

6 comentários

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  1. PAULO DE BONI / Abr 18 2011 19:44

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk,muitos kkksssss.

    Belissima cronica,que não sei se vai acento,me perdi-me no tempo das prosopéias e onomatopéias.Agora, não sei o que fazer de minha cabeça,como não usar internet,mouse,deck, etc…pode???
    to fuck, esta não pode???
    abraços, brilhante escritor e advogado more or less….kkkkkkkkk

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    • Paulo Wainberg / Abr 18 2011 19:57

      ahahahah, obrigado Paulo. E cuidado, o Rabello vai te processar por causa desse ‘more or less’ aí. Grande abraço, Paulo

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  2. Rene Castagnino / Abr 19 2011 9:50

    Acho que estás minimizando e vulgarizando uma iniciativa que pode ser boa. Não sou comunista nem político… nem advogado, nem avô… sou pai e médico. É evidente que existem palavras que são inexistentes no vernáculo e por isso são importadas, modificadas e usadas correntemente fazendo parte de nossos dicionários. Pelo que entendo o nobre político está querendo varrer os absurdos. Quanto ao e-mail que falaste.. ninguém recebe e-mail… recebes uma correspondência em um endereço eletronico que é o e-mail… recebi, então, via e-mail, a correspondência de fulano ou cicrano.
    Penso que não podemos banalizar as iniciativas. Quem sabe mandamos a ele sugestões. Os ingleses importam palavras, os alemães o fazem, também…. Os japoneses, chineses (os outros não sei) usam ós números arábicos para expressar, como nós, quantidade das coisas… Quem sabe a gente ajuda a melhorar as coisas… Uma coisa não invalida a outra… as estradas vão continuar precisando da nossa atenção, saúde, segurança também.
    Rene.

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    • Paulo Wainberg / Abr 19 2011 13:02

      Meu caro Rene.
      Como és pai, tua probabilidade de, um dia, te tornares avô, é muito grande. Então conhecerás um novo tipo de alegria, totalmente diferente de qualquer outra que tenhamos durante a vida.
      Respeito tua opinião sobre minha crônica, agradeço por teres lido e por teres comentado. A questão, ao meu ver, é tão absurda para ser levada adiante, não apenas pelas outras necessidades que o Brasil possui, mas pela impossibilidade de aplicação concreta de uma lei dessas. Como proibir o uso de palavras estrangeiras em qualquer texto? Qual será a pena para que infringir essa lei? Quem vai fiscalizar, processar e julgar? Imagina o custo, ao País? Por outro lado, o Portugues, como todas as línguas, evoluem (modificam-se) pelo uso, pela linguagem oral, pela assimilação de palavras estrangeiras. Isto acontece com o Inglês, sem dúvida a língua mais poderosa do mundo, e acontece inclusive com as línguas orientais, cujo alfabeto é totalmente diferente do nosso. Costumo brincar, dizendo que a maneira mais rápida de ficar analfabeto é desembarcar em Tóquio ou em Pequim, sem saber nada de japonês ou mandarim… Tu mesmo me corrigiste: claro, não se manda ou recebe e-mail e sim uma correspondência via e-mail. Entretanto o termo, pelo uso corrente, já é utilizado como se fosse a própria correspondência: vou te mandar um e-mail, recebi um e-mail, etc, há até quem use email, assim junto, sem o hifem.
      Honestamente, não sei como colaborar com esse projeto, a não ser assim, escrevendo contra ele.
      Muitíssimo obrigado novamente e apareça sempre. Um abraço, Paulo

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  3. Carlos Eugênio / Abr 22 2011 15:49

    Prezado Paulo, embora concorde contigo, não pude deixar de notar que cometestes um grave erro de português ao escrever a palavra arterioesclerose. O correto é aterosclerose.
    Deveriam elaborar leis que melhorassem o ensino escolar.

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    • Paulo Wainberg / Abr 22 2011 16:58

      Caro Carlos Eugênio.
      Concordamos nas ideias, mas discordamos na gramática. Arterioesclerose está lá no Aurelio, arterosclerose também. As duas expressões estão corretas. O que não está correto é a tua concordância verbal, no que se refere à 2a. pessoa do singular no pretérito: ‘tu cometestes’.
      A conjugação correta é: eu cometi, tu cometestE, ele cometeu. Nós cometemos, vós comesteteS, eles cometeram.
      Enfim, erros, quem não os cometem?
      Por isto, também concordo contigo: deveriam elaborar leis que melhorem o ensino escolar.
      Grande abraço, Paulo.

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