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15/04/2011 / Paulo Wainberg

Papo leve

Estão vulgarizando a vulgaridade. O que isto quer dizer? Não sei. É outra dessas frases que atravessam meu cérebro como se fossem metais que se lançam ao éter.

Porém, refletindo um pouco, não deixo de ter razão, a vulgaridade está cada vez mais vulgar e, um pouco mais,  o vulgar se tornará banal, isto é, perderá todas as suas qualidades.

Ligo no programa do Faustão, aquele esqueleto que um dia foi gente, e me dedico a observar o bailado das bailarinas. Então me pergunto, enquanto alguém está despencando de uma escada e o Faustão acha graça: onde será que arrumam mulheres tão lindas?

Abro as páginas do jornal e leio que o Senado (irrrrghhh) comprou oitenta carros novos para os senadores (arrrrghhh) e mais oitenta iphones (sei lá o que isto faz), para substituir os carros velhos do ano passado e o celulares velhos da semana passada.

Leio um livro de auto-ajuda e percebo quanta coisa eu deixo de fazer para me auto-ajudar, como não ficar estressado, não me incomodar com bobagens, como não rezar dez vezes ao dia, como não misturar bananas com melancia e como não tomar doze tranquilizantes.

Vai ver é por isto que passo minha vida sem conseguir me auto ajudar e, portanto, submetido ao que der e vier.

Vou ao jornal de novo e vejo que esses livros são os mais vendidos do mundo.

Aí, numa tentativa de desvulgarizar um pouco a vulgaridade, abro um livro de poemas, me dou conta de que as frases do poeta propõem, com beleza, lirismo e emoção, a plena ajuda para quem souber ler, mas logo canso, religo a televisão para assistir o programa do Gugu, que Deus me perdoe.

Dezenas de bundas femininas, moldadas com se fossem pão recém saído do forno, sacodem ante meus olhos e nem acho graça.

Centenas de seios flatulentos balançam à minha vista e é como se abacates em crise, protestando contra o PT, desabassem ao mesmo tempo do abacateiro.

Então me pergunto: onde está a autêntica vulgaridade, aquela que o Chacrinha despejava sobre nós todos os domingos, sem malícia e sem vergonha?

Não existe mais, infelizmente.

A vulgaridade hoje está tão vulgar, que ninguém mais repara nos bigodes lustrosos, nas gravatas extravagantes e no sotaque nordestino dos deputados federais.

Tão vulgar que ninguém nota.

Sou do tempo em que a vulgaridade possuía um quê de, sei lá, sutileza, mistério, uma gênese de reflexão que surgia à simples visão de uma Rita Cadilac.

Na contrapartida, a voz de Nara Leão, a poesia de Chico Buarque, o show do Chico Anysio elevavam o espírito desarmado, tanta intensidade posta ao nosso dispor que era possível, com um pouco de boa vontade, apreciar e rir da vulgaridade.

Chacrinha, Golias e Luz Del Fuego ocupavam nossos espaços vazios com vulgaridade um tanto criativa, capaz de gerar desejos de maior refinamento, em busca de uma estética, digamos por dizer, mais cultural, frase esta que talvez signifique que, após assisti-los, saíamos correndo em busca de Mozart, Beethoven e de Lawrence Durrel e seu Quarteto de Alexandria.

Hoje não. Hoje, após assistir o pagode, o funk, o punk, o remelexo da mulata silicone e os comentários dos ídolos da televisão, sobra um espanto, uma perplexidade, uma inacreditável incapacidade de compreender como Mais Você, Menos Você, Papo Calcinha, Papo Cueca, Zorra Total e a Praça é Nossa permanecem no ar, semana após semana, ano após ano, repetindo, repetindo e repetindo.

A vulgaridade, vulgar do jeito que está, conseguiu atingir sua finalidade ontológica, sua razão de ser, seu devir, seu fundamento filosófico: vulgarizar definitivamente o vulgo.

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