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30/03/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Cavalgovias

Todo ano, durante a Semana Farroupilha, algum vereador de Porto Alegre sugere a criação de uma via da cavalgada na cidade.

Acho a ideia genial.

Nós, porto-alegrenses, estamos realmente prejudicados em nossas cavalgadas. Quando vamos buscar os cavalos na garagem de casa ou do edifício, a dificuldade é grande pela falta de caminhos especiais. Pior é quando, já montados, saímos à rua.

Os automóveis ocupam praticamente todo o espaço e nós, cavalgadores, temos que andar com extremo cuidado, acalmando os cavalos que bufam e se assustam com as buzinas.

Andamos a passo lento, não há lugar nem mesmo para um trote o que, honestamente, é uma vergonha e um descaso do Poder Público com as necessidades cavalares. Como é sabido, os cavalos precisam trotear, é uma exigência veterinária que envolve a circulação cardiovascular do animal. Eu acho.

Às vezes a insensibilidade dos governantes dói… dói muito, dói mais do que unha encravada, topada no garrão ou chimarrão fervente na garganta.

Porém com a Cavalgovia, o problema será resolvido. Em todas as ruas e avenidas de Porto Alegre existirão faixas de chão batido de terra (o asfalto machuca os cascos do animal) nas quais, devidamente montados, poderemos trotear  sem carros estacionados ou querendo ultrapassar, usando suas  buzinas insensatas. E livres de pedestres incautos que, para não sujar os sapatos ou levantar poeira, evitarão caminhar sobre a terra vermelha, a melhor para o trote, segundo estudos genéticos.

Sobre as calçadas, logo acima da sarjeta, serão instaladas armações de madeira para o cavalo, onde poderei amarrar as rédeas, tomar um mate, amargo e amigo e, com toda a calma do mundo, fumando um palheiro, charlar sem pressa com outros cavalgadores.

Esse projeto tem que ser aprovado. Afinal precisamos humanizar Porto Alegre.

Já não é sem tempo que os nossos edis resolvam essa grave carência. Perdem seu tempo discutindo bobagens como o plano diretor, novas linhas do Trensurb, homenagens e concessões de títulos de cidadão honorário e deixam de lado essa questão crucial.

Porto Alegre já ostenta, orgulhosamente, o título de “A Capital Mundial das Carroças Puxadas a Cavalo” e, com as Cavalgovias, ingressaremos definitivamente no primeiro mundo, contra tudo e contra todos, especialmente aqueles que só pensam e luxo e riqueza.

A cidade vai rejuvenescer, elevar seu padrão ambiental, será citada como exemplo de preservação da natureza na ONU e a bosta dos cavalos, devidamente reciclada, adubará nossos pastos, aumentando a fertilidade bovina, eqüina e caprina, reforçando nosso amor pela querência, pela chinoca e pelos pagos verdejantes.

Não tenho palavras para elogiar essas iniciativas anuais dos nossos proficientes vereadores. Atentos e sensíveis às necessidades urbanas, propõem um salto de qualidade, uma nova idéia de gestão, um inédito modelo de adequação às carências eqüinas da Capital dos gaúchos, tão maltratada pelos pedestres, automóveis, ônibus e outros meios de locomoção a ponto de, numa esquina, eu, montado em meu cavalo alazão, ter que esporear o bicho para cruzar a avenida, afrouxando temerariamente as rédeas.

Finalmente nossa cidade entrará no século XXI mostrando que não estamos para brincadeiras e que há espaço para todos. No sinal fechado a garota olha para o lado e me vê altaneiro, dominando o cavalo com viril autoridade, enquanto cofio os bigodes.

Ela abre o vidro do carro para olhar melhor e eu olho para ela, lá de cima do meu potro um tanto xucro. Ela sente que o lugar dela é na minha garupa, que ela nasceu para abraçar minha cintura  e encostar a cabeça nas minhas costas, prenda domada, seduzida e disposta a cavalgar comigo pelas ruas da cidade.

E eu, bom cidadão, não abandono a cavalgovia e, mal abre o sinal,  sigo em trote firme, olhar posto no horizonte, ignorando a garota motorizada  e alisando a crina do meu potro para ele saber quem é que manda.

Na próxima Semana Farroupilha, em Setembro, espero que, finalmente, as cavalgovias saiam do papel e se tornem realidade porque, assim como está, nossos cavalos estão ficando neuróticos e, se não forem de corrida, acabam decadentes, puxando carroças pelas avenidas, humilhados e sem garbo.

Já é hora de mostrar que, aqui, lugar de china é na zona, educação sexual é no barranco e que cavalo que é cavalo respeita o relho e obedece a espora.

One Comment

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  1. June Souza - BH/MG / Abr 5 2011 22:15

    Procede! Idéia de jerico. Só espero que essa moda não venha para os lados de cá… rsrsrs

    Gostar

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