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16/03/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Bis in idem

Quando entrou na máquina do tempo para voltar ao passado e apertou o botão, não fazia a menor idéia do que iria acontecer.

Ficou cego devido ao clarão e quando a visão voltou viu-se entrando na máquina do tempo e apertar o botão.

Imediatamente ele se viu olhando para as costas dele mesmo que entrava na máquina do tempo e apertava o botão.

Quando a grande sala estava repleta dele mesmo e ele já estava do lado de fora, percebeu que tinha que interromper a seqüência para acabar com a conseqüência.

Pois cada vez que ele entrava na máquina do tempo e apertava o botão voltava alguns segundos ao passado e ia para o último lugar da fila.

Durante os poucos segundos de reflexão ele já estava no jardim do grande edifício e logo em seguida do outro lado da calçada.

Ele tinha que se impedir de entrar na máquina do tempo e apertar o botão, isso era urgente, imprescindível, pensou, ao ver os setenta quilômetros de fila dele mesmo a sua frente.

Mas como fazer? – perguntou-se, percebendo que estava em outra cidade e, mal percebeu isso e já estava fora da outra cidade, no meio de campos sem fim.

Nenhuma idéia lhe ocorria quando sentiu uma coisa dura e fria às suas costas e, antes de se virar, viu que estava dentro da máquina do tempo e logo em seguida diante da porta por onde ele tentava entrar em vão.

Dera a volta no planeta e batera de costas com a sua frente, completando o ciclo e congelando o tempo.

Parou imediatamente de se reproduzir porque, de costas, impedia-se de entrar na máquina do tempo e apertar o botão. Não tinha como se mover, pois a máquina era estreita e não cabia dois, lado a lado. Ele do lado de fora não conseguia entrar, sem perceber que eram as costas dele mesmo que trancavam a passagem.

Com grande esforço ele, do lado de dentro, conseguiu virar-se e ficou de frente com ele do lado de fora que se vendo do lado de dentro nada entendeu e teve uma crise de pânico.

Do lado de dentro ele disse para si mesmo, do lado de fora, que não entrasse na máquina do tempo nem apertasse o botão porque a coisa estava preta.

Do lado de fora ele controlou o pânico e compreendeu que ele já havia entrado na máquina do tempo e apertado o botão, causando uma sucessão sucessiva dele mesmo graças a uma ruptura inesperada no contínuo espaço-tempo sobre o qual a máquina do tempo operava.

Do lado de dentro ele explicou para si mesmo, do lado de fora, que ele ocupava a circunferência inteira do planeta sendo ele, do lado de dentro, o último dele mesmo e que ele, do lado de fora, era o primeiro.

O de lado de fora perguntou a si mesmo do lado de dentro qual seria a solução.

O do lado de dentro concluiu que só havia um modo de interromper o processo e que por isso ele, do lado de fora ia desobstruir a porta e ele do lado de dentro sairia pela porta de entrada, percorrendo o caminho inverso até que ele, do lado de fora fosse o primeiro da fila.

Ele do lado de fora compreendeu a idéia e deu um passo para o lado. Imediatamente ele, do lado de dentro, saiu da máquina do tempo e continuou caminhando de costas, seguido por ele do lado de dentro que foi seguido por ele do lado de dentro até que, doze anos depois ele, do lado de fora, viu-se diante da desbloqueada entrada da máquina do tempo, tendo-se atrás de si, o primeiro de frente encostado nas costas dele.

O tempo que ele levou caminhando de costas para dar outra volta na circunferência do trajeto, percorrendo caminho paralelo ao que percorrera na primeira vez, foi rápido, considerando o tamanho do planeta.

Ele, do lado de fora viu que ele, estava de costas, encostado na dura e fria parede da máquina do tempo, do lado de lá, e compreendeu que o círculo se fechara novamente.

Com um suspiro de alívio entrou na máquina do tempo e apertou dois botões ao mesmo tempo.

Imediatamente ele, do lado de fora, foi-se dissolvendo um a um e ele, do lado de dentro, foi o único que restou.

Saiu da máquina do tempo, consultou o indicador espaço-tempo e viu que estava de volta ao exato momento em que entrara na máquina do tempo e apertara o botão.

Pensativo dirigiu-se para a saída, algo ocasionara a ruptura do contínuo espaço-tempo, uma probabilidade e quinhentos trilhões de acontecer. Ia demorar até descobrir o defeito. Abriu a porta e estancou, ouvindo passos atrás de si.

Virou-se.

Ele saiu da máquina do tempo, consultou o indicador espaço-tempo e viu que estava de volta ao exato momento em que entrara na máquina do tempo e apertara o botão.

Segundos depois ele saiu da máquina do tempo, consultou o…

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