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11/03/2011 / Paulo Wainberg

Fora de controle

Quando chegou no trabalho e percebeu que havia esquecido o celular em casa, Haroldo teve um pressentimento.

No final da tarde saiu rumo à garagem para pegar seu carro. Tinha hora marcada no proctologista dali a quarenta minutos, para seu exame anual da próstata.

Apesar do pressentimento, nada de extraordinário acontecera, durante o dia, salvo o desconforto constante que sentiu com a ideia de ir ao médico e o que lá esperava por ele.

Haroldo e a maioria dos homens, não importa o gênero, possuem uma relação um tanto conflituosa com aquela parte do corpo onde o proctologista trabalha.

As mulheres, ao contrário, são definidas quanto à região e, para elas, a questão é simples e se resume a duas opções: sim ou não.

Alguns metros após sair da garagem, sentiu o carro tremer e diagnosticou o óbvio: pneu furado.

Beneficiado pelo milagre que socorre os infortunados, havia um local para estacionar o carro, coisa que fez, incontinenti, apesar da placa de estacionamento proibido.

Raciocinou, com clareza, que apesar da proibição, o dano de estacionar ali era infinitamente menor do que simplesmente parar o carro no meio da rua, em plena hora do rush.

Com o suspiro dos conformados, desceu do veículo e foi olhar o pneu dianteiro esquerdo que, murcho como um saco de batatas vazio, revelava toda fragilidade da tecnologia ao deparar-se com um prego ou com um ventil defeituoso.

Com as mãos no bolso, Haroldo recordou, não sem esforço, o último pneu que trocara na vida, há cerca de quarenta anos, quando era proprietário de um luzente Gordini vermelho de última geração.

Fazer o que?, pensou ele. Mãos à obra, vamos trocar este pneu.

Ato contínuo dirigiu-se à garagem em busca de um manobrista disposto a cumprir a tarefa.

Mas nenhum estava disponível.

Retornou ao carro, olhando para os lados. Um catador de papel enchia o seu carrinho com sacos de lixo e, percebendo a situação, lascou:

– Furou, doutor? Quer que eu troque?

– Você sabe trocar pneu?

– Deixa comigo, doutor. Depois, sai uma cervejinha?

– Claro, rapaz, – disse Haroldo abrindo o porta-malas.

Haroldo nunca tinha se interessado em verificar onde ficavam estepe, macaco e ferramentas de seu carro. Presumia que tudo estava ali, no seu devido lugar.

O papeleiro, com surpreendente agilidade, logo pegou o macaco, localizou o lugar correto, ergueu o veículo, achou uma chave para tirar os parafusos, encaixou no primeiro e… a chave girou, livre e solta.

Haroldo, olhando a cena, intuiu que o pressentimento da manhã começava a adquirir tons de realidade.

– O senhor não tem outra chave, doutor?

Pronto, o drama estava posto. Como assim, outra chave? Aquela não era a chave?

– Não, esta aqui é muito larga para estes parafusos, olha aqui, doutor, ela sobra.

Haroldo foi ao porta-malas, abriu recipientes ocultos, camuflados, procurou sob tapetes, no lugar da estepe, nada, nenhuma outra chave.

– Não tem outra, tem certeza que essa aí na dá?

A esta altura, umas quatro ou cinco pessoas que conversavam na porta de uma fruteira haviam se aproximado para assistir a operação.

E os palpites começaram.

Um deles falou que ali na esquina, ali ó, bem na esquina, tá vendo aquela loja de roupas usadas?, fala com o Chinês, eu acho que ele tem uma chave em cruz.

– Chave em cruz?

O papeleiro saiu na corrida enquanto Haroldo obtinha detalhadas informações sobre o que era uma chave em cruz e como era importante sempre ter uma, no carro.

O papeleiro voltou dizendo que o Chinês não tinha chave em cruz, mas tinha essa aqui, acho que com esta vai.

Agachou-se, enfiou a chave no parafuso e… ó glória, funcionou. Rapidamente ele tirou três parafusos e, no quarto, a coisa trancou.

Haroldo olhou para o relógio, aflito. Estava prestes a perder a hora no médico. O papeleiro, esganiçado, fazia uma força incrível, mas não conseguia afrouxar o quarto parafuso.

Os espectadores se uniram ao esforço e um deles, em conjunto com o papeleiro, tentou e não conseguiu.

O papeleiro, iluminado por súbita ideia, subiu na haste da chave, saltitou sobre ela, com todo o seu peso e, nada.

Outro assistente sugeriu pegar um cabo de ferro, engatar na haste, aumentando a circunferência e diminuindo o esforço. Sem mais delongas, entrou na fruteira e retornou com uma barra de ferro.

Ajustaram tudo e, em conjunto de quatro, fizeram tanta força que entortaram a barra de ferro.

Mas o parafuso não se mexeu.

Agoniado, Haroldo resolveu desmarcar a hora no médico, enfiou a mão no bolso e, ah como aquele pressentimento estava certo, é claro, não encontrou o celular.

O papeleiro:

– Olha doutor, o senhor me desculpe, acho que esse parafuso aí emperrou. Não tem jeito.

Os assistentes se afastaram, o papeleiro se afastou e Haroldo viu-se subitamente sozinho, a noite já fechada, ao lado do seu carro com pneu furado, estacionado em lugar proibido.

E sem celular.

É claro que um fiscal de trânsito se aproximou:

– O senhor não pode estacionar aqui.

– Eu não estacionei, é que furou o pneu.

– Mas aqui é proibido, o senhor precisa tirar o veículo.

– Meu amigo, eu vou tirar o veículo assim que conseguir trocar o pneu.

– Mas o senhor não pode estacionar aqui.

Ah, aquele pressentimento.

– Vou lhe dar quinze minutos. Se o senhor não tirar o veículo, vou ter que multar.

– Multa, cara! Multa de uma vez! Não está vendo que estou com um problema, que o parafuso não sai…?!

O fiscal seguiu em frente, com seu bloco de multas em punho.

De repente, não sabia o que fazer. Andou de um lado para o outro, desorientado, não conseguia se decidir. Imaginou que Clarinha não ia acreditar naquela história.

Afinal fora ela quem marcara hora no proctologista, coisa que ele vinha adiando há meses, ela era muito fanática com a saúde dele, ia ficar uma fera, como é que ele sair daquela?, e nem avisou o médico, não podia deixar o carro ali, mas como é que um simples pneu furado muda tanto a vida de uma pessoa?.

Mal viu o dono da fruteira se aproximar:

– Quem sabe o senhor chama um guincho e leva o carro para uma borracharia?

– Um guincho? Ah é, boa ideia, mas como é que vou chamar um guincho? Não conheço nenhum, esqueci o celular em casa…

– Não tem problema, o senhor pode ligar ali da fruteira. Se o senhor quiser, eu tenho o telefone de um guincho.

O trânsito, naquela hora, era simplesmente infernal, engarrafando a cidade inteira. O guincho levaria uma hora para chegar. Levou uma hora e meia.

Mais tarde, quase dez da noite, indo para casa com o pneu trocado – o borracheiro levou um minuto e meio para trocar o pneu –, o parafuso emperrado, com a chave em cruz, desemperrou em dois segundos, Haroldo pensava na fragilidade da vida, em como as coisas são fugazes, de que serve a vida metódica, planejada e organizada se um incidente banal alterava tudo, modificava um destino, levava para caminhos…

Mal entrou e foi logo dizendo para Clarinha:

– Querida, você nem sabe o que me aconteceu hoje. Escapei de levar um dedo no rabo.

3 comentários

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  1. June Souza - BH/MG / Mar 13 2011 15:38

    Ótima!!!! Várias nuances… eu pensava nessa situação em uma perspectiva feminina. Meu lado machista de pensar, crê que homens são “criados” para superar tudo. Você colocou de forma leve toda fragilidade masculina (sejam banais, tecnológicas ou mesmo as “proctológicas”). Super divertido!!!

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  2. Enoch Grupp / Abr 10 2013 0:14

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