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09/03/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Biografias falsas, verdadeiras e inúteis

Jeremiah Farrel, mórmon de Ohio, USA, no ano de 1736, numa bela tarde de outono em que o ar da tarde estava povoado de algodões voadores, etéreos e diáfanos, enrolava uma grossa corda de fibra de casca de árvores, machucando os dedos e lutando contra os nós que teimavam em se formar, no novelo.

Ao sentir sede, largou o rolo de corda sobre a grama e destampou sua cantina de couro, tomando dois goles de água quente, mas refrescante. Ao depositar a cantina no chão, ao seu lado, sob a árvore em que se encontrava, percebeu um brilho na grama. Curioso, esticou o braço e pegou o objeto: era um osso da coxa de um galo, há muito depenado.

Olhou o osso, olhou o novelo emaranhado de corda e teve uma ideia: desfez o trabalho anterior, pegou uma ponta da corda e começou a enrolá-la, simetricamente, no osso.

Assim inventou o carretel de linha, até hoje usado pelos mais renomados costureiros e peça indispensável na arte da costura.

Jeremiah percorreu a pé os poucos quilômetros até chegar na sua aldeia. Enquanto andava, enfiava os dedos entre a longa barba, cacoete adquirido aos cinco anos, idade em que, segundo a lenda, nasce a barba dos mórmons.

Estava ansioso, louco para revelar sua descoberta a Mabel Lee, sua prometida desde o nascimento e com quem casaria, logo que ela menstruasse pela primeira vez.

O sucesso da invenção foi tamanho que toda a aldeia passou a utilizá-la para enrolar cordas, fios e outros tecidos.

Sucedeu que chegou à aldeia o Reverendo Carter e seu Elixir Carter, capaz de curar desde micoses até bexiga solta, ossos doídos e unhas encravadas.

Quando a aldeia se reuniu ao redor da carroça do Reverendo Carter, ele percebeu que grande parte dos mórmons enrolava cordas em ossos de coxas de galos e galinhas, as crianças até brincavam, segurando a ponta da corda e arremessando o osso para o chão e, com um puxão, faziam a corda se enrolar novamente, numa versão rudimentar do ioiô.

Com seu grande tino comercial, o Reverendo Carter apressou-se em patentear e industrializar o mecanismo que, no entanto, caiu no domínio público com o nome vulgar de Carretel de Linha.

A não ser eu, ninguém tem a menor idéia de quem foi Jeremiah Farrel, o inventor do carretel de linha que, tão logo surgiram os primeiros sinais menstruais, tomou por esposa sua prometida, Mabel Lee com quem teve mais de uma dezena de filhos. Jeremiah morreu obscuro, apenas um a mais a morrer, entre os anciões da aldeia mórmon.

 

II

J. S. Bach compôs uma fantástica obra musical: Tocata e Fuga em Ré maior, A Paixão Segundo São Matheus, A Paixão Segundo São João, Os seis Concertos de Bradenburgo que inspiraram Villa-Lobos a compor suas Bachianas Brasileiras, suítes para piano, violino, violoncelo, mestre da fuga – ou contra-ponto – autor de O Cravo Bem Temperado e do conhecidíssimo Jesus Alegria dos Homens, entre tantas outras, sem falar nas que se perderam, ao que consta, quase a metade.

Enquanto isto, passou a vida tocando órgão em igrejas, dando consultoria técnica na construção de novos órgãos, lutando por empregos e aceitando tocar em igrejas católicas embora fosse firmemente luterano. E ainda teve tempo de deixar 20 filhos. Enquanto viveu, sua obra musical passou desapercebida, pouco valor lhe davam os amantes musicais da época, considerando-o ultrapassado e sem vigor.

Reconheciam-lhe ser um virtuoso tocador de órgão e nada mais. Morreu cego.

Cem anos depois de sua morte, Mendelson resolveu levar à cena a maior obra de Bach, A paixão Segundo São Matheus, obra para orquestra, coral e solistas com mais de três horas de duração.

O mundo quedou-se boquiaberto, iniciou-se uma corrida pelas composições de Bach que acabou sendo considerado, unanimemente, o maior compositor barroco da História, chamado por alguns, como Beethoven, como ‘o pai da música’.

Apenas para você compreender melhor o drama, imagine que você criou uma obra-prima superior, em qualquer ramo da arte. Mostrou ao pessoal, uns gostaram, outros não deram bola e muitos detestaram.

Aí você morre, digamos ali por 1910.

De repente alguém – eu, por exemplo – descubro sua obra-prima em algum lugar, fico enlouquecido com ela e passo a divulgá-la e, tanto a coisa anda, que você acaba sendo reconhecido o maior de todos os tempos, o gênio completo, admirado, cultuado e imitado pelo resto dos tempos. É o máximo, vai negar? E se isso tivesse acontecido quando você ainda estava vivo, ia ser melhor ainda.

Pois é.

 

III

Durante séculos, principalmente os XVIII, XIX e XX, discutiu-se a origem, a época de nascimento e o processo criativo de Homero, poeta grego autor das obras A Ilíada e A Odisséia, que sistematizaram formalmente a rica mitologia grega.

A Ilíada relata o último ano da Guerra de Tróia, que durou dez anos. Naquele último ano Aquiles é atingido por uma flecha disparada por Paris no único lugar vulnerável de seu corpo: o calcanhar.

A perda de seu herói abalou os gregos e Ulisses, Odisseu em grego, bolou a estratégia do Cavalo de Tróia que, introduzido em Tróia recheado de soldados, dizimou os troianos, pondo fim, assim, à guerra e dando origem à popular expressão “Presente de Grego” que significa que, por traz dele, avança uma grossa sacanagem para o presenteado.

A Odisséia relata os dez anos seguintes, durante os quais Ulisses (Odisseu), fez de tudo para voltar para Itaca, seu reino onde Penélope tecia sua teia, sendo sempre surpreendido por lindas feiticeiras e bruxas a seduzi-lo com o que há de melhor na existência: conforto, boa comida e muito sexo. Finalmente Odisseu retorna, disfarçado de mendigo, elabora suas tramas e, enfim sós, curte sua fiel Penélope, que jamais duvidou de sua volta.

Historiadores de todas as estirpes, correntes e níveis de conhecimento, tentaram desvendar o mistério de Homero, o cego, porque Homero, em grego, significa aquele que não vê, portanto Homero não era nome próprio e sim uma alusão à deficiência física do aedo, a declamar seus poemas épicos nas praças, ruelas, cantinas, hospedagens e outros lugares públicos da antiga Grécia, especialmente nos ágoras e bordéis.

Alguns sustentam que Homero não existiu e que a Ilíada e a Odisséia não passam de compilação de poemas épicos recitados pelos aedos, os poetas, menestréis e trovadores da época.

Outros afirmam que Homero foi um grande escritor, capaz de compilar fatos históricos, dando-lhes formato épico e acrescendo-lhes ingredientes misteriosos, religiosos e sobrenaturais.

Outros afirmam que Homero, por ser cego, apenas falava e recitava, enquanto uma legião de escribas, equivalente aos modernos sebentários das aulas na faculdade, tratavam de copiar cada suspiro, cada gemido e cada palavra do mestre.

Finalmente, a grande descoberta: Lorde Linvingstone, Barão de Rocheville, Príncipe da Antuérpia e, nas horas vagas, zagueiro central do time B do Mônaco Futebol Clube, além de rico proprietário de uma loja de equipamentos eletrônicos na rua central de Andorra, compilou absolutamente tudo que se sabia, tudo o que foi dito, tudo o que se argumentou a respeito de Homero e concluiu, sem sombra de dúvidas que a Ilíada e a Odisséia não foram escritas pelo poeta grego e sim por um outro poeta grego, casualmente chamado Homero e, casualmente cego. E comprovou sua afirmação mediante um depoimento escrito por Egidio, o Marceneiro, numa pedra pome encontrada às margens do Mar Morto por um grupo de turistas que dizia, em grego vulgar antigo: “Este Homero, o cego, não é Homero, o cego, que compôs a Ilíada e a Odisséia, e sim o dono de uma peixaria em Creta. Homero, o cego, que compôs a Ilíada e a Odisséia, é outro”.

A História não falha.

 

IV

 

Existem duas maneiras de tirar um esparadrapo: lentamente, pedacinho por pedacinho, produzindo a torturante dor dos cabelinhos da pele sendo arrancados. Ou de supetão, uma puxada radical, dói tudo de uma vez só e a dor passa, também, de uma vez só e rapidamente.

Durante décadas a fio, foram tirando lentamente o esparadrapo do Haiti, produzindo dores constantes e intermináveis. Para cada pedacinho de esparadrapo puxado, o Vodu era invocado, justificando a dor, o ditador pedia o sacrifício do povo em nome do futuro que jamais chegou, a doença, a miséria, a guerra, o crime, a sujeira, a ignorância, o atraso, a falta de acesso à tecnologia moderna foram alguns dos pelos arrancados com muita dor e lentamente, pelo monumental esparadrapo grudado nos haitianos.

A natureza resolveu mudar o processo e, para tirar o terrível esparadrapo, usou o método do puxão, provocando uma única, imensa, torturante e massacrante dor, a comover o resto do mundo.

Agora, em nome da solidariedade de urgência, da ajuda de ocasião, bilhões de dólares, entre dinheiro, serviços e bens estão sendo colocados no Haiti, para ao menos mitigar a gigantesca dor.

O que me deixa curioso é saber qual dos métodos usarão, a partir de agora, para retirar o esparadrapo: lentamente para manter tudo como estava, ou de supetão, para uma mudança radical em que os esparadrapos só serão utilizados em quem precisar.

2 comentários

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  1. June Souza - BH/MG / Mar 13 2011 15:56

    Interessante! Vivendo e aprendendo…
    Abs

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  2. Paulo Wainberg / Set 6 2015 11:00

    Reblogged this on Paulo Wainberg.

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