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02/03/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Beatles, Elvis e eu com isso?

Não gosto de conjuntos cover. Aliás, se alguém souber o que significa essa palavra e em que língua ela é falada, gostaria muito que, se não for incômodo, pudesse me informar.

Mas sei que são conjuntos musicais especializados em imitar outros, uma espécie de culto à personalidade alheia.

Não contentes em só cantar as músicas, imitando os cantores originais, usam as mesmas roupas, cortes de cabelo, criam ambientes decorados para dar ao freqüentador a ilusão de que está posto lá, onde existia um relógio assim, um poste assado e lustres tal e qual e o mesmo nome mitológico alusivo a determinado disco ou determinada rua.

Obcecam-se em copiar e, algumas vezes, abrem mão do próprio  talento, como cantores ou instrumentistas.

Para mim, quando raramente vou a um desses lugares onde tocam conjuntos cover, tudo soa falso, por mais que eu goste do original.

Nada contra alguém cantando o que outro já cantou, desde que com estilo próprio e pessoal, dando à música a interpretação que brota da sua emoção.

Porque aos grupos e ambientes “cover” falta exatamente a emoção genuína transmitida pelos originais.

A demonstrar que emoções não se copiam e só se transmitem quando verdadeiras.

Porém devo estar errado, tanto que são aos milhares, os “covers”, lotando bares e teatros pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil e, em particular, aqui em Porto Alegre.

Talvez as pessoas que amem os covers sejam as que não viram, ao vivo, os originais e não puderam, como eu, serem impregnados da respectiva magia. Ou viram e, para amenizar as saudades, contentam-se com as imitações.

O que me chama a atenção é que aqui, no Brasil, os conjuntos cover imitam grupos estrangeiros a justificar, talvez, o uso da palavra.

Não vejo culto aos grandes músicos e intérpretes brasileiros, nenhum bar imitando o de Ipanema onde se reuniam Vinicius e Tom Jobim, nem mesmo na remodelada Lapa, no Rio de Janeiro, qualquer coisa que evoque os cabarés onde cantava Noel Rosa. Desconheço qualquer ambiente que cultue aqueles que freqüentava Lupicínio Rodrigues, grupos “cover” de grandes conjuntos vocais que, na sua época, brilharam com intensa qualidade e arte.

Quem imita, por exemplo, Roberto Carlos? Mas temos centenas de imitadores de Elvis Presley. E o MPB4? E o Quarteto em Cy? E tantos e tantos outros.

Não, não estou defendendo os imitadores ou os “covers” – não esqueça do meu pedido, será que “cover” significa imitador? – mas o aculturamento externo que o mundo dos negócios, a mídia, o complexo de inferioridade crônico e uma espécie de desapego “nacional” impõe a nós, brasileiros, é assustador.

Na música, no cinema, nos programas de televisão, na literatura e em outras formas de expressão, somos viciados e dependentes do que  vem de fora.

Existem exceções, é claro. E muitas. Felizmente temos ainda capacidade de valorizar nossas realizações, o que nos dá a tímida idéia de sermos um povo.

Qualquer livro americano, escrito para virar filme, que surja com a marca de “best seller” é imediatamente noticiado por nossos jornais e revistas, divulgado, traduzido e exposto aos borbotões e em cascata nas vitrines e estandes das nossas livrarias.

As redes de cinema não se constrangem em dedicar seus espaços aos filmes estrangeiros, amplamente alardeados, torcendo o nariz para as produções nacionais salvo aquelas que obedecem às fórmulas tradicionais destinadas ao grande público como o recente Tropa de Elite.

A maioria de nossas rádios, com exceção de algumas educativas, reservam a quase totalidade de seus espaços para as músicas estrangeiras.

Nossos programas de televisão copiam descaradamente os modelos americanos, desde os de auditório até os famosos “talk  e reality shows”, os humorísticos e os noticiários. Talvez sejamos inovadores em telenovelas o que, cá para nós e com perdão dos que as assistem, pouco recomendam a nossa inteligência.

A Humanidade adora eufemismos. E o Mundo capitalista adora a hipocrisia e o cinismo. “Cultura” é um notável eufemismo a disfarçar, hipócrita e cinicamente, a ambição pelo ganho e pelo lucro.

O Carnaval, do Rio de Janeiro para baixo, abandonou a sua origem e transformou-se em gigantesca máquina financeira, mercado de negócios, compra e venda e publicidade. De divertimento popular travestiu-se num Campeonato Oficial que se repete, ano a ano, sob normas e regras rígidas, contagem de pontos de 0,0001 ao número inteiro para obter-se desempates. Apresentado sempre no mesmo local das cidades assim que, brincar nas ruas, fantasiar-se, extravasar alegrias contidas, liberar ilusões ou simplesmente olhar saiu de moda, perdeu o sentido participativo e coletivo. Corrompeu-se sob a impiedosa pressão dos interesses econômicos e capitalizou-se como Produto de Consumo Elitizado.

Do Rio de Janeiro para cima, ao que parece, ainda guarda sua espontaneidade popular embora a cada ano fique mais pasteurizado.

O ciclo perverso funciona em espiral crescente: mostra-se o que mais se vende para vender-se ainda mais o que mais se mostra, mesmo a custa da criatividade e do talento.

A globalização solidificou ainda mais o Império da vulgaridade que, disseminado aos quatro cantos como um vírus infeccioso, contaminou de morte o Gosto e transformou a Estética em mais um eufemismo.

O pior de tudo isso é que, como uma propaganda subliminar ou uma hipnose coletiva, insidiosamente condiciona-se o gosto e a vontade, transformando a mediocridade em fenômeno, a paródia em “verdade”, o inútil em indispensável, o ruim em bom.

Ninguém pode gostar do que não conhece e ninguém pode conhecer o que não lhe é mostrado.

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