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02/03/2011 / Paulo Wainberg

Corpo

Quando meu corpo cansado não pode mais se movimentar, eu olho de lado, me ponho a pensar no que fiz no passado, eu olho para baixo, me ponho a pensar no que faço no presente, eu olho para cima, me ponho a pensar no que fazer no futuro.

E nada vejo.

Meu corpo cansado de guerra, abatido, aturdido, sem sonhos para revelar, eu fico na estante, parado, pregado, um estrago que não se pode reparar.

E quando não sobra nem resto do resto para me alimentar, minha fome se estende para frente e para trás, sem sede, sem dentes para mastigar.

O espelho quebrado me diz que a verdade é pouco salutar, falta uma melodia para me acompanhar, meu corpo cansado, ferido de guerra, aturdido e gemido, não tem mais ouvidos para escutar.

É tarde da noite, meu corpo cansado, dorido de guerra, doído de choro não quer resolver nenhuma parada, amor insensato que teima em fugir, não chama, sem chama, alquebrado a chorar.

Sem eira, sem beira, meu corpo gelado não volta a suar, não vê um repente, uma luz, um luar. Meu corpo tão triste, vazio e sem ar.

Mais tarde, sentado na beira do poço, meu corpo vencido de tanto apanhar, olhando a cidade no fundo da alma sem graça, nem cogita levantar, nem abraçar, nem dançar.

São letras sem rumo que chovem no mar, o silêncio absurdo, nuvens a remar, seqüelas de um corpo malhado de fel, nem penso em parar, nem andar, nem ficar.

Meu corpo sem sombra, sem rede no mar, o vento não toca, a brisa não sente, meu corpo tão triste não voa no chão.

E quando a criança, lembrança, esperança, meu corpo sem sede não quer alcançar, sozinho, na lama, no barro a chorar.

Meu corpo sofrido, tão velho e sem tom, olhando o inverno, o inferno, a lenda da morte ecoando na areia, um pássaro gentil me manda um gorjeio, um cão com fastio, um gato no cio, um centauro sem patas, um monge senil, meu corpo esgotado, pilantra, não sente o arrepio.

Ah, meu corpo atordoado, traído e traidor, abandonado ao sabor de borboletas escusas e lagartos obscuros.

Meu corpo vergado não quer mais cantar.

 

6 comentários

Deixe um Comentário
  1. Clarice Ge / Mar 2 2011 13:29

    Como música de fundo para este “poema” nada melhor que Arnaldo Antunes com seu “Buraco no Espelho”… (concluindo com “Bandeira Branca”… pois para ir adiante também é preciso olhar pra tras).

    Abr.

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    • paulo wainberg / Mar 2 2011 15:05

      Maravilhoso, Clarice. Muito obrigado pelo comentário e pelo vídeo. Abr. Paulo

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  2. June Souza - BH/MG / Mar 3 2011 22:53

    Parabéns pelo belíssimo texto. De uma profundidade incrível. Como eu disse a uma amiga (que me enviou o link do seu blog), você traduziu em palavras o indescritível.

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  3. liael / Mar 4 2011 0:38

    Paulo…está muito bem escrito,mas é deprimente.Será que não poderias escrever, sobre o lado bom da vida ,de quem olha para atras,,e pode ver a tragetória de suas realizações em sua passagem pela vida. Fica aqui tua leitora e admiradora,amiga Liael.

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    • Paulo Wainberg / Mar 4 2011 11:38

      Liana, como sempre, estás presente! Sabe o que é? O lado bom da vida é só a metade dela. Às vezes o escritor precisa falar sobre o resto, também. Um beijo, Paulo

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