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23/02/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Barroquices Rocoquianas

Sabe quanto tempo de sua vida você gasta piscando os olhos?

Esta transcendental questão científica percorreu os séculos ora inclinando-se numa direção, ora noutra, os sábios pesquisadores sofreram as perseguições do clero medieval, muitos outros foram sacrificados nas masmorras da Inquisição e alguns professores de filosofia, medíocres e frustrados porque nunca conseguiram ser filósofos, fizeram pouco da incógnita e a remeteram para um segundo plano na Teoria Geral do Conhecimento.

Finalmente, após a influência do Iluminismo Alemão, a ciência adonou-se da questão, arregaçou as mangas e foi à luta.

Duras batalhas foram travadas entre as diversas correntes de pesquisadores e estudiosos, sobretudo nos congressos internacionais que, por quase duzentos anos dominaram os noticiários e as discussões dos povos mundiais, em festas de casamento, bares e restaurantes, velórios e cabarés.

A mais célebre de todas as  querelas aconteceu em meados do século XX, no Congresso Internacional de Ancara, na Turquia quando foi apresentado pelo grupo de cientistas dominante o resultado final de uma pesquisa realizada em todo planeta que envolveu  mil milhões de pesquisados: o tempo que se gasta piscando os olhos é equivalente ao tempo que dura a vida do indivíduo.

Orgulhoso com a conclusão, o chefe da equipe de cientistas preparava-se para receber a consagradora salva de palmas dos congressistas quando um jovem, não mais de vinte e sete anos, dinamarquês de nascimento mas iugoslavo por opção, ergueu o dedo indicador da mão direita e, timidamente pediu a palavra.

Convidado para subir à tribuna, o jovem cientista declarou que ousava discordar do eminente colega porque, segunda suas próprias e individuais pesquisas, enquanto dorme ou quando está em estado de coma, o indivíduo não pisca. E esse tempo – que ele denominou de não – pisco – deveria ser descontado e só assim ter-se-ia o valor exato do tempo que se gasta, durante a vida, piscando os olhos.

O tumulto foi imediato! Os cientistas ali reunidos começaram uma discussão simultânea, cada uma falando no idioma de origem enquanto os flashes espocavam, os repórteres corriam aos telefones e as televisões, incipientes na época, gravavam e transmitiam o buchicho com peculiar volúpia informativa.

Uma das coisas mais maravilhosas da Ciência consiste exatamente nisso: quando tudo parece descoberto, legislado e definitivamente assentado, eis que uma nova descoberta é feita e aquilo que parece terminado volta ao início.

O resultado daquele Congresso é que, nos anos e décadas seguintes, a Ciência tratou de descobrir se o indivíduo adormecido, em coma ou simplesmente de olhos fechados pisca ou não.

É bom esclarecer, para que não pairem dúvidas conceituais, que o tema abrangia apenas o campo da piscagem normal excluindo-se, por exceções, os portadores de cacoetes ou rictos faciais. Estes estavam fora, o assunto lidava apenas com a função biologicamente concebida de piscar os olhos com naturalidade. Outras hipóteses foram consideradas forçação de barra destinada a tumultuar a pesquisa.

Após exaustivo trabalho que contou com a abnegação inenarrável de cientistas em todo o planeta, muitos deles sofreram ações de divórcio porque jamais iam jantar em casa, a Ciência finalmente concluiu que o indivíduo em coma, adormecido ou de olhos fechados, pratica o, como denominaram, micro-pisco, uma espécie de piscagem latente, imperceptível a olho nu mas flagrado através dos mais sensíveis microscópios e aparelhos de ultrassom, ressonância e dedos polegares roçando pálpebras durante intermináveis horas, dias após dias.

Pouco mais de uma década depois, com o avanço tecnológico cibernético, revelou-se a ocorrência do, como foi denominado, “nano-pisco”, fenômeno que perdura por algumas horas após a morte do indivíduo.

Esta revelação desabou sobre a Humanidade como se as neves do Himalaia derretessem instantaneamente: o indivíduo gasta a totalidade de sua vida piscando os olhos e um pouco mais.

O primeiro trabalho científico decorrente foi um artigo publicado no Science Magazine do Memorial Institute of Science de Boston. Nele o articulista afirmava que se parássemos de gastar nosso tempo piscando os olhos viveríamos o dobro do tempo e um pouco mais, isto é, aquelas horas adicionais em que o “nano-pisco” continua operacional.

“Pare de piscar”, propunha o cientista, “e ganhe tempo de vida”. Algo semelhante ao que, décadas antes, fora proposto por outro cientista: se abandonarmos o hábito de dormir, ficaremos três quartos do nosso tempo de vida a mais, acordados.

O bafafá foi geral. Aqui e ali começaram a pipocar perguntas dramáticas: quanto tempo de nossa vida perdemos na fila do banco? Quantos segundos preciosos de nossa existência são gastos assoando o nariz? Quantas horas acumuladas de vida desperdiçamos em pé, no corredor do avião, carregados de pacotes, aguardando que as portas da aeronave se abram?

Aos poucos a Humanidade foi percebendo, não sem crescente melancolia, que gastamos o tempo que nos é destinado na vida com tantas coisas que o que sobra para viver é mínimo, insignificante, vários dígitos abaixo do zero na relação custo-benefício.

Algumas mentalidades mais pobres, espiritualmente falando, resolveram que, como tudo era desperdício de tempo, quanto tempo se perdia transando?, e iniciaram um movimento – com apoio religioso integral – para que se incluísse, como cláusula pétrea da Constituição, a limitação da prática do sexo em uma a cada cinco anos, definindo como crime hediondo o descumprimento da lei. Porém, à guisa de compensação, insistiam como obrigatória esta única relação sexual, a cada cinco anos.

O Senado viu a idéia com bons olhos mas rejeitou a idéia porque a coisa lá em baixo é outra.

Como tudo na vida é transitório, perder tempo piscando os olhos deixou de ser assunto porque em dois dias foi completamente esquecido pela mídia e, por conseqüência, pelo resto.

Mas a questão metafísica permanece: se depois de morto você continua piscando os olhos….?

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