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02/02/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Amuletos febris

Meu horóscopo anda aprontando para mim.

Como é de conhecimento público, não sou absolutamente supersticioso nem acredito em mau-olhado. Quebro espelhos com tranqüilidade, nem me importo quando derramo sal ou se um gato preto cruzar à minha frente. E quando vejo uma escada passo por baixo dela sem nenhuma cerimônia.

Além disso não saio de casa sem ler meu horóscopo, e já vão décadas. É leitura obrigatória no jornal, durante meu café da manhã. Faço isto por duas razões perfeitamente justificáveis.

A primeira é que gosto de saber o que os astros reservam para o meu dia. Em quais conjunções se envolveram para determinar se devo fazer isto ou aquilo e se o momento é propício para dar mais atenção àquela tarefa ou à pessoa que, nos últimos dias, negligenciei.

A segunda, e mais importante, é porque, como me disse alguém que não lembro mais, tanto tempo faz, que sair de casa sem ler o horóscopo dá um azar danado, se eu não quisesse que coisas ruins me acontecessem, que jamais, jamais repetiu ele, saísse de casa sem ler meu horóscopo.

Por via das dúvidas, nunca se sabe e porque não custa nada, venho obedecendo à recomendação com fidelidade idêntica à conjugal, se é que me entende.

Não sei se você já se deu conta que as coisas ruins estão à espreita, prontas para acontecer a qualquer momento, principalmente aquelas que, lá no fundo mais profundo do seu eu, você teme que aconteçam e, todos os dias, na hora de dormir, você respira aliviado porque não foi hoje.

Ao contrário, as coisas boas em geral pegam você de surpresa, demoram tanto para acontecer que você nem esperava mais.

Então, para que fique bem claro e você não pensar que sou supersticioso, leio meu horóscopo todos os dias para dificultar o trabalho das coisas ruins e não para provocar o surgimento de coisas boas. Aí sim, seria superstição, compriende?

Entre as várias facetas da minha personalidade a de menor expressão é a originalidade, razão pela qual, por instinto de defesa, copio o que os outros dizem com a maior cara de pau, porém com honestidade.

Quando copio, eu digo.

E é copiando os grandes mestres da auto-ajuda que ouso dizer a V. Excelência que diante das coisas ruins, deveis lutar para melhorá-las e para conseguir as coisas boas, batalhai por elas sem esperar que elas vos caiam do céu, como caem  granizo, aviões e cocô de pombas.

Meu horóscopo costumava dar conselhos, orientar meu dia e fazer previsões, gerais, é verdade, mas previsões.

“Você, libriano, se sente melhor no imaginário do que no real, mas às vezes é bom olhar para a terra.”

“Aquário, seu ascendente, influencia negativamente seu signo. É tempo de refletir mais, antes de agir.”

“Marte está sob a influência de Vênus, bom período para o amor. Já é hora de dar aquele telefonema que você vem adiando”.

“Excelente período para assinar papéis, assumir compromissos e adquirir a tão sonhada casa própria. Leituras favorecidas.”

Alguns vaticínios mais filosóficos:

“Não perca tempo com aquilo que você não compreende, entre o céu e a terra”.

“Se um é ruim, dois é bom e três é demais, não insista. Contente-se com o que tem e pare de cobiçar o que não tem.”

“A lua está  em fase propícia, libriano. Liberte-se, solte as amarras que impedem você de voar.”

“Estão culpando você por tudo? Lembre-se, você não tem a missão de carregar o mundo nas costas. Avalie as possibilidades e deixe de lado o lixo do dia a dia.”

Conselhos mais diretos:

“Deixe de lado a tendência de querer ajudar os outros. Não esqueça que, para ajudar alguém você precisa primeiro ajudar a si mesmo.”

“Encucar-se não adianta, aja! Você só saberá o significado do sorriso que ela(e) lhe deu se for perguntar”.

“Não perca a oportunidade, marque logo aquele almoço, diga o que tem a dizer e verá que o retorno será imediato.”

Alguns até com alguma dose de ironia e bom-humor:

“O alinhamento astral é turbulento. Se eu fosse você não saia da cama, hoje.”

“Levante daí, Libriano, sacuda a poeira, dê a volta por cima. Mercúrio, no periélio, convida você para a aventura.”

Prognósticos, portanto, com os quais eu lido muito bem, não me causam sobressaltos, inclusive as metáforas astrais que, sem maior dificuldade, interpreto muito bem. Posso sair de casa tranqüilo e arremeter dia adentro, com força e com vontade.

Ultimamente, entretanto, meu horóscopo mudou o estilo e o foco, o que muito está me perturbando.

E o jornal não trocou o horoscopista, pelo menos o nome é o mesmo.

Meu horóscopo abandonou a linha do conselho, do prognóstico e da orientação e passou a me fazer perguntas:

“Um libriano normalmente desconhece a própria força. Você conhece a sua?”

Como assim? Não é ele quem tem que me dizer qual o tamanho da minha força? Qual força ele está falando, a física, a moral, a psíquica? Estará ele me sugerindo ir a uma academia de ginástica erguer halteres? Me desafiando a recusar dez milhões de Euros de propina? Propondo que eu leia pensamentos ou movimente objetos só com o olhar?

“Quando os conflitos vão ao extremo a razão cede e o impulso assume o controle. O que você vai fazer, quanto a isso?”

Você não imagina como eu fico quando, mastigando pão com manteiga e tomando um gole de café, leio uma coisa dessas escrita no meu horóscopo. Engasto, tusso, entra um farelo de pão pela faringe (ou laringe), espirro, meu cachorro fica louco (ele enlouquece com espirros), derramo café no pijama e queimo a perna, espirro de novo, tusso mais ainda, levo cinco minutos para escapar da apoplexia e respirar normalmente.

O que é que eu vou fazer quanto a isso? Como é que eu vou saber, por Meu Pé de Laranja Lima?!!!!!! Estarei por acaso no Iraque? Alguém cortou a minha frente no trânsito? Os funcionários do meu escritório me esperam com escopetas, floretes e socos-ingleses? Algum magistrado me jurou de morte por causa de um recurso?

“As meias-medidas servem para obter apenas meias soluções. Você já é bastante grande para procurar soluções inteiras. Qual vai ser a sua atitude, daqui para frente?”

Isso lá e coisa que um horóscopo pergunte aos membros de um signo? Por acaso todos nós, nascidos em Libra com ascendente em Aquário estamos tão defasados, quanto às soluções?

Dia desses, assustado, fiz o que nunca faço em matéria horoscopal e li os  outros signos. Fiquei mais assustado pois meu temor se confirmou: Marte e Áries sabiam, com perfeita clareza, que o período não era recomendado para jogos de azar e apostas em geral. Os leoninos entravam no período da fecundidade e podiam fazer planos para aumentar a família ou iniciar uma. Todos os signos dentro da mais absoluta normalidade.

O que eu suspeitava se confirmou de forma aterrorizadora: era uma questão pessoal. Meu horóscopo está falando diretamente comigo, querendo saber de mim quais providências vou tomar para, no futuro incerto, merecer outra vez o que ele, por tanto tempo, tem me ofertado.

Vivo atormentado, posto diante de um dilema, sem saber qual atitude tomar: continuo a ler meu horóscopo e seus angustiantes questionamentos a me torturar? Ou paro de ler e afundo na onda de azar inevitável que sobre mim desabará?

Como, felizmente, não sou supersticioso, resolvi fazer o seguinte: comprei um pé de coelho, catei um trevo de quatro folhas num banhado lá perto de casa, guardei um dólar na carteira e pendurei ferraduras em todas as portas de minha casa.

E dei um tempo para o horóscopo que é para ele saber quem é que manda.

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