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26/01/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Amores veniais

Glória conheceu Menezes na quermesse onde ela vendia maçãs do amor e ele era o catador de papeis. Enquanto isso Paco, aquele da Lucia, assava um coelho do Paulo, reservando uma pata para Tarcisio, um pobre meira vagabundo, vencido pela bebida.

Menezes tinha origem espanhola. O patriarca da família chamava-se Menez e teve tantos filhos que logo ficaram conhecidos como los Menezes, transformando em plural o sobrenome que antes era singular.

Glória, moça prendada e dada, também vendia beijos na quermesse e Menezes apressou-se em catar toda a papelada, receber seu parco salário e, com ele, comprar um beijo de Glória.

Antes pediu ao padre, encarregado do toca-discos cujos sons arranhados ecoavam na quermesse, tocando músicas de paz e amor, religião e fé, que pusesse a tocar “Boneca Cobiçada”, canção com a qual pretendia beijar Glória e conquistar a jovem, depois de pagar o preço.

A voz de tenor inundou a praça: Boneca cobiçada, das noites de sereno, teu corpo não tem alma, tua boca tem veneno.

Menezes, com o coração aos trancos (e barrancos), postou-se diante de Glória, estendeu-lhe as notas e disse: – Quero um beijo. – E concluiu, sedutor: – tua boca tem veneno?

Paco, o da Lucia, virou o espeto para assar a barriga do coelho, que era do Paulo, conhecia Boneca Cobiçada de cor e salteado. Tomou de seu violão e dedilhou as cordas, entoando a melodia. Porém o tenor cantava em fá sustenido maior e Paco só sabia tocar em dó maior. Não se achou e abandonou a empreitada, fazendo um sinal a Tarcisio, o meira que mais parecia um farrapo humano, indicando que o logo o paulo coelho estaria pronto e ao ponto.

Foi o delírio.

Glória segurou o dinheiro com seus delicados dedos. Por aquela não esperava! Ia ter que beijar Menezes, o catador de papel? Olhou para o sorriso desdentado que se estampava, ansioso, diante dela e pensou, lá consigo mesma: “que droga, como é que escapo desta?”

Olhou para o relógio, mas estava no horário de expediente. Não tinha como recusar.

As regras da quermesse eram sólidas, rígidas e imutáveis: quem pagava tinha direito ao beijo. Ai dela que recusasse! Nunca mais seria vendedora de maçãs do amor e de beijos, nas quermesses da igreja. O padre não negociava tais questões.

Paco, o da Lucia, com o dedo indicador, chamou o pobre meira, um Tarcisio arruinado que em trapo humano se transformara por causa de um amor sem sexo: o coelho estava pronto.

Tarcisio arrancou a pata com suas unhas imundas e comeu tudo, lambuzando a cara de gordura.

Foi a glória.

Glória, temente e temerosa, persignou-se, resignou-se e ofereceu os lábios ao Menezes, para um beijo de raspão. Porém Menezes segurou-lhe a nuca e enfiou-lhe a língua na boca, de chuá, indo-lhe cosquear  os gargumilhos até sentir-lhe o ofego e o corpo ceder, puxando-a para fora da barraca e atracando-se-lhe nas coxas e no corpo todo, enquanto o tenor, no disco, repetia o refrão: Boneca cobiçada das noites de sereno, teu corpo não tem alma, tua boca tem veneno.

Foi o amasso.

O padre, com as bochechas rubras de justa indignação, percebeu o verdadeiro propósito de Menezes e trocou Boneca Cobiçada por Jesus Alegria dos Homens, esperando com isso sofregar os bestiais instintos de Menezes que, sinceramente, sentiu o golpe.

Não contava o pároco, entretanto, com as chamas internas que ardiam entranhamente em Glória, assim acesas por tanto deslavado beijo, linguado e sem dente, a ponto de responder aos assédios com a própria língua que, com sofreguidão, passava gulosa pelas gengivas nuas de Menezes, sentindo-lhe o excitante gosto de melaço com cachaça, palheiro e capim, sendo hábito do herói estar sempre a mastigar um.

Foi o espanto.

Paco, o da Lucia, retirou o coelho de Paulo do fogo, desprovido de uma pata, desespetou o assado colocando-o sobre um prato de alumínio. Abriu seu pote de farofa e, civilizado como era, colheu um pedaço de picanha com o garfo, banhou a carne suculenta na farofa e deliciou-se como há muito, observando Tarcisio, o meira desatinado, emborcar um gole do bico de uma garrafa de conhaque, estirado contra um tronco de árvore que lhe servia de poltrona, arrotar e coçar as bolas mal escondidas sob os andrajos esfarrapados que lhe serviam de calças.

Glória não desgrudava de Menezes que, sem pudor e sem vergonha, apertava-lhe a bunda contra o ventre, mostrando à jovem ao que viera, a pertinência do bastão, textura e contumácia.

Foi a grandeza.

O cura, à beira da apoplexia, trocou novamente o disco e, quando sobre a praça e por todos os ouvidos dos quermessantes retumbou o grito de ALELUIA do Messias de Handel, finalmente Glória recuperou o senso e, com inusitado esforço empurrou pelo peito o ensandecido Menezes e, cobrindo a face com delicados dedos, murmurou: – Ó Meu Deus, o que é que tu vai pensar de mim? – E qual gazela arrepiada percebendo-se sob a mira do canhão ou, no caso, espingarda, jogou-se para trás da barraca onde vendia maçãs do amor e beijos, ajustou o decote e, com o sorriso virginal das indecentes, perguntou: – o próximo?

Coube ao destino designar que o próximo fosse justamente Menezes, vez que outro não existia, na fila.

O meira, tarcisiamente conformado, pegou uma bagana de traz da orelha esquerda e acendeu no lume da brasa ainda ardente, sobre a qual Paco, o da Lucia, assara o coelho, de Paulo. Deu duas tragadas, jogou a guimba longe e, com a filosofia acumulada em noites estreladas do sertão, vendavais gelados do Minuano e chuvas torrenciais do veranico de maio, sentenciou: – É isso aí – e pôs-se imediatamente a dormir.

Foi o auge.

Paco, o de Lucia, sorriu-se intimamente, com ar de sabedoria profunda e comeu o último naco do coelho, de Paulo, retomou seu violão e, alheio aos gritos aflitos do coral na vitrola, entoando: Rei dos Reis, Aleluia! Rei dos Reis, Aleluia!, dedilhou com basca suavidade pequenos trechos de uma zarzuela que vinha compondo há quinze anos.

Glória, tomada de louca paixão religiosa e beato fervor, recusou o dinheiro que Menezes colocara sobre o balcão, para um novo beijo. Ordenou que ele, Satanás em pessoa, saísse da frente dela, que não a tombasse em tentação, que sua alma, coração e corpo eram sagrados e a Deus dedicados ou, no mínimo, ao homem dos seus sonhos, coisa que Menezes, mesmo no plural, definitivamente não era. Persignou-se três vezes, beijou a unha do polegar da mão direita e rezou um Padre Nosso e uma Ave Maria com olhos postos no padre que, satisfeito e orgulhoso, considerou cá consigo que ele conhecia os fiéis de sua paróquia e, mentalmente, escreveu a carta que enviaria naquela noite mesmo ao Bispo, relatando sua vitória.

Foi o máximo.

Desconsolado mas não muito, Menezes gastou o resto do seu dinheiro no lupanar, afofado pelos amplos seios de Dagmar, uma mulata que só comia goiabada cascão…com muito queijo.

As vozes do coral infantil da Escola São João entoaram “eu vivo esperando e procurando um trevo no meu jardim”, marcando o final do primeiro dia da quermesse.

Tarcisio, meiramente borracho e mole liberou-se de seus gazes, Paco, o da Lucia, foi esperar por ela na saída da fábrica de sabão.

Glória recolheu as poucas maçãs do amor que restaram, fechou cuidadosamente a barraca, foi para a casa onde morava com sua avó mais velha, a quem cuidava, tomou um longo e masturbatório banho. Depois jantou com a avó e recolheu-se ao leito, ainda sentindo na boca o gosto de capim que herdara da boca de Menezes.

Um pouco antes de adormecer sentiu um calafrio só de lembrar que ainda havia seis dias de quermesse pela frente.

Foi a espera.

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