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19/01/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Amor perfeito

Uma versão:

Narciso era tão belo que se achava um Apolo ou Dionísio. Julgava-se um deus. E como tal desprezava o constante assédio masculino a que era submetido, manifestando tal desprezo sem dó nem piedade.

Amantis, jovem efebo perdido de paixão, tanto incomodou que, para ver-se livre dele Narciso ofereceu-lhe a espada como presente.

Amantis postou-se à porta da casa de Narciso e orou à deusa Nêmeses que fizesse Narciso conhecer a dor de uma paixão não correspondida. Em seguida, com a espada que ganhara de presente, suicidou-se por amor.

Poucos dias depois Narciso apaixona-se perdidamente por um belo rapaz, sem perceber que se tratava de sua própria imagem refletida na água. Todas as suas tentativas de conquistá-lo fracassaram e termina por matar-se com a própria espada, repetindo assim o incontido desespero de Amantis.

Outra:

Narciso, filho do deus-rio Cefiso com a ninfa Liríope, recebeu do adivinho Tirésias o vaticínio de uma longa vida, desde que jamais olhasse para sua própria imagem. Certo dia, às margens do lago Eco, inadvertidamente Narciso observou-se refletido nas águas cristalinas. Tomou-se de paixão por si mesmo e, desesperado, definhou até à morte.

Mas uma:

Ovídio, poeta latino que influenciou de Shakespeare a Keats, em sua obra Metamorfoses, nos dá a versão poética e dramática da lenda de Narciso: A ninfa Eco, seduzida pela beleza sobrenatural de Narciso e por ele desprezada, definha e morre, exalando um débil gemido final. A deusa Nêmeses, indignadíssima com a insensibilidade do jovem, sua arrogância e inútil altaneirice, condena o rapaz a apaixonar-se pela própria imagem, no Lago Eco. Soterrado por tamanho amor impossível, Narciso deita-se à beira do lago e, enquanto se embeleza, definha e definha. As ninfas do lago constroem uma pira e, quando vão buscar o corpo encontram em seu lugar apenas uma flor: o narciso.

Existem outras versões, mas, em todas elas prevalece a ideia central: a vaidade exacerbada e o amor exagerado por si próprio.

Entre as superstições gregas da antiguidade, uma das mais poderosas era a de que olhar para si mesmo dava azar. Possivelmente dessa ridícula ideia tenha surgido a lenda de Narciso.

E, com toda certeza, é por isso que o Conde Drácula não se reflete no espelho. E nenhum outro vampiro conhecido e que seja digno desse nome.

Agora o mais impressionante: sabe qual é a palavra que deriva de Narciso? Não? então se prepare, aí vai: Narcótico.

Exatamente, nobres senadores, narcótico deriva de Narciso. O entorpecimento e a insensibilidade derivam de Narciso. A maconha, cocaína, crack, heroína, ópio, marijuana, anestesia local, anestesia geral, tudo isso deriva de Narciso.

Às vezes eu penso cada coisa! Por exemplo: o que seria de Freud sem a mitologia grega? Pois não é que o homem foi lá na antiguidade para diagnosticar em seus estudos sobre a histeria o “amor pelo semelhante” como explicação paras as inclinações homossexuais, na época tidas como patológicas.

Mas adiante Freud concebe o denominado erotismo anárquico, a fase infantil primitiva em que as zonas erógenas se satisfazem independentemente umas das outras como, por exemplo, a criança chupar o dedo. Mais adiante, com o crescimento, há uma organização erótica, chamada de  erotismo lógico em que o prazer é coordenado e usufruído pelo conjunto erógeno do indivíduo.

A fase patológica do narcisismo freudiano corresponde ao desejo de retornar ao estado de ideal de ser o único amado, incondicional e constantemente, com obliteração absoluta, na mente, das relações parentais explícitas.

Mais ou menos isso.

Voltando ao assunto… qual era mesmo? Ah, sim, os narcóticos.

O consumidor de drogas não busca exatamente isso, o entorpecimento de sua capacidade lógica de raciocínio para abandonar-se totalmente às emoções primitivas, irresponsáveis e inconsequentes?

Em outras palavras, sob o efeito da droga o indivíduo pode sentir-se em estado ideal de perfeição e “paz”, amando-se a si mesmo mais do que a qualquer coisa, indiferente ao amor alheio, um soberano e lindo deus que de nada precisa além do próprio amor ao amor-próprio.

Paz absoluta, o retorno ao estado primitivo ideal, uterino, auto-justificável, liberdade irrestrita para nada fazer nem ter que fazer.

Insensível ao seu redor, o drogado despreza os que por ele são, simbolicamente falando, apaixonados: pais, irmãos, amigos, filhos, família. Para não ser incomodado nem retirado de sua magnífica auto-suficiência livra-se dos chatos assediadores escondendo-se ou brindando-os com pequenas doses de lucidez aparente e promessas falsas, não se importando que eles se matem e definhem, também simbolicamente falando.

O castigo para o drogado é semelhante à metáfora de Narciso: definhar, sucumbir, desaparecer, não às margens de um lindo e cristalino lago, mas nas águas sujas e fétidas das sarjetas, seus restos apodrecendo em túmulos sobre os quais serão depositadas flores, possivelmente alguns narcisos por algum tempo e, pouco tempo depois, nenhuma flor e, olhe lá, no dia de finados, uma visita rápida.

O drogado não é drogado por escolha, assim como Narciso não escolheu ser Narciso.

É preciso compreendê-lo, eu acho. Entender os vieses psíquicos de sua mente. As carências químicas de seu organismo, seus mecanismos de defesa fragilizados e entender que não é menos do que outros, inferior a ninguém, apenas diferente, é isso, diferente.

Todos temos um Narciso dentro de nós. Saber disto talvez seja o primeiro passo para… sei lá, para olhar para os outros, olhar para fora de si mesmo e aceitar o amor alheio.

Por que estou falando disso? Não sei, hoje acordei assim.

One Comment

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  1. Jahadi Leal Porto / Out 3 2015 18:03

    Excelente texto meu amigo! Abraços.

    Gostar

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