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29/12/2010 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Aiaiaiuiuiui

Você aí que anda em busca de grandes momentos na vida, pode parar e experimente pensar um pouco.

Sim, é com você mesmo que estou falando, você que ainda não entendeu que ilusões não existem e, portanto, não podem ser perdidas. Você que acha que apenas o grandioso é o que vale e não consegue aproveitar nada da vida porque, em busca da “elevação superior” da alma ou do espírito, despreza as conquistas feitas e abre mão das verdadeiras emoções que, ao fim e ao cabo, são verdadeiras porque você foi capaz de senti-las.

Ouça um bom conselho e reconsidere tudo, desde o início.

Vou dar alguns exemplos para ajudar nesta reflexão.

O último ganhador do Prêmio Nobel da Paz: ganhou a maior honraria do universo, atingiu o ápice da glória pessoal e do reconhecimento. Foi saudado em discursos grandiloqüentes, recebeu uma polpuda grana, participou de um jantar comemorativo com as maiores celebridades, foi ovacionado e depois de tudo para onde ele foi?

Pense, para onde ele foi? Foi para casa dormir. Talvez até tenha comido um pedaço de salame italiano na cozinha, com um refrigerante e pão. Tomou um banho, quem sabe. Conversou com a mulher sobre um filho problemático, doeram-lhe as costas e demorou a adormecer, preocupado com alguma coisa que deixou para fazer amanhã como, por exemplo, levar o carro na oficina.

Coisas semelhantes aconteceram com os convivas da festa e, provavelmente com você, depois de um bom dia de trabalho ou de uma festa maravilhosa ou de uma formatura chata.

Claro que ambicionar um prêmio Nobel é muito bom. E ganhá-lo também. Mas o bom mesmo é depois, quando você está abrigado no seu próprio mundo, conhecendo de cor e salteado o seu ambiente e as pessoas que convivem com você.

A fama e a glória, meu amigo, só têm graça se você puder exibi-la entre os seus amigos, a sua família, os seus gostares.

Já vi muita celebridade assediada por garotas deslumbradas, pedindo autógrafos em cadernos escolares. O famoso lasca um garrancho no caderno e continua o assunto com quem realmente interessa, isto é, com quem tem algo a compartilhar.

Pessoalmente – não me envergonho de admitir – já passei duras penas nessa busca por algo superior que me deixava permanentemente insatisfeito, como se nada que me acontecesse fosse suficiente, grande o bastante para a minha “grandeza”.

Ledo (ivo) engano que cometi e que me custou caro, muito caro. As moedas com que paguei foram sofrimento, perda de oportunidades, referências distorcidas.

Um dia, escovando os dentes, olhei para minha boca cheia de dentifrício e me ocorreu: olha só que coisa maravilhosa este gostinho e a sensação de limpeza em minha boca. Entrei no banho e senti cada pingo de água tépida acariciando minha pele, os cabelos, o corpo inteiro… experimentei sensações grandiosas.

E assim, de gosto em gosto, de sabor em sabor, aquele dia revelou que minha vida era repleta de grandes momentos, recheada de reuniões monumentais, jantares soberbos, glórias inesquecíveis e homenagens incomparáveis como, por exemplo, o abraço de um amigo, o beijo de uma prima, um encontro de família para cantar as canções melhores e mais bonitas de todos os tempos, com muito riso, cerveja e sanduíches.

Você aí, que ainda não entendeu, não se desespere. O primeiro passo é não se considerar assim tão especial que o torne credor de todos os favores do mundo nem que todas as mulheres ou homens estão ao seu dispor. O passo seguinte é não achar que, indo ao cinema, está perdendo a balada ou que, indo à balada, está perdendo um concerto e que, indo ao concerto, está perdendo o futebol e que indo ao futebol está perdendo uma transa e que, indo transar está deixando de transar com outra e… e… e…

Conseguindo dar esses dois passos será mais fácil aceitar que você não é obrigado a gostar de ópera ou de artes plásticas. E compreenderá também que, se gostar, isto não o torna melhor do que ninguém.

Aliás, quando você se der conta de que, na essência, ninguém é melhor do que ninguém, você ficará perplexo ao perceber que, como corolário, ninguém é pior do que ninguém.

Então você poderá conversar com o garçom, a lavadeira, a empregada doméstica, o maior maestro do mundo, o presidente da república ou  Pelé do mesmo modo, sem sentir-se superior, sem sentir-se inferior.

Finalmente, diante da velha, surrada, renovada e sempre invocada poeira dos tempos, você será mais um invisível grão que será lembrado pelo que foi e não pelo que quis ser.

Até ser esquecido e nem isso terá mais importância.

Ouça um bom conselho, você aí: aproveite o que tem, tente conseguir o que deseja e não perca seu tempo com ais e uis inócuos.

Use-os para o sexo, minha filha, meu garoto.

2 comentários

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  1. José Blum / Jan 3 2011 13:27

    Adorei, trata-se de uma verdadeira lição de vida. Assim vivenciamos que o melhor da vida está nas coisas simples que permeiam tudo o que acontece no nosso dia a dia e que se algumas coisas grandiosas acontecerem elas logo se evaporam no meio dessas coisas simples que compõem a nossa verdadeira razão de ser.

    Obrigado pelas suas reflexões que nos ajudam a melhor viver…

    Gostar

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