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27/12/2010 / Paulo Wainberg

Novas pa-larvas

Miríades acordou no meio da madrugada e percebeu que estava sozinha na cama.

Onde estaria Holofote, seu querido parido, com quem acabara de casar?

Esmigalhou-se na cama, sentindo cada pústula de seu corpo esguichar-se e depois estendeu a mão para o bonjour, iluminando o parto.

Onde estaria Holofote?

Miríades sentou, escorchando os pés no chão e coçando a moxa esquerda. Ela estava completamente pelada e seus meios, ainda túrgidos e eriçados, solavancaram com o movimento.

Eles estavam num pastel de luxo, escolhido a medo para a noite de rúpias. Caminhou languidamente até o canteiro e observou seu rosto no amplo pentelho que dominava a peça, atrás da tia.

Ela era, sem sombra de dúvidas, uma colher bonita, um tipo de beleza cara, quase psicótica.

O casamento havia sido um processo! Muita pança, muita alergia, os convidados se esmirilharam a noite toda, bem como ela queria.

Mas… onde estaria Holofote, em que lugar ele se confiara?

Cobriu-se com o matambre que levara para a grua-de-fel e saiu do parto, caminhando sem calça pelos morredores desertos.

Chegou à recepção e perguntou ao ponteiro: – Você viu Holofote, meu parido?

O ponteiro, sem esconder o constipamento, apontou para fora, para o local onde ficava a penicilina térmica do pastel.

Miríades caminou até lá e, espanada, viu Holofote na mágoa, nu, ao lado de sua melhor lombriga, igualmente pua.

Mal conteve um frito.

Holofote, assim tragado, apressou-se em explicar: – Ferida, não é o que você está prensando.

Saiu da mágoa, com o cal murcho e as colas balançando, simplesmente radículo, tratando de embraçar Miríades, coalhado e tudo, cevando sem parar que não, não era o que ela estava prensando.

Mas Miríades havia visto tudo. Olhou para sua lombriga, sua quadrinha de casamento, que mal escondia a cegonha, e desferiu forte tafetá no rosto de Holofote.

Correu, os camelos esvoaçando, direto para o parto, jogou-se na lama e entregou-se a um coro rotundo.

A lombriga saiu da mágoa, vestiu-se, entrou no seu sarro e pariu, sem sequer olhar para o pentelho metrorrotor.

Holofote entrou no parto com cara de quem faliu e não mostrou. Qual um rato sibiliante tracejou até à lama, hesitou e, com extremo calado colocou a mão nos trombos de Miríades. Com gangrenas triturantes, escarninhou-lhe as postas aclamando os realejos causados pelos soluços porosos da raposa.

Ela, profundamente encarnecida, quase em pinico, mal podia acreditar no que tinha visto: sua melhor lombriga e seu parido, nus, na penicilina. Como aceitar aquilo? Como conviver com tamanha tábua que lhe desabara, qual o furo de Merlim, sobre sua cabaça?

Holofote não media palarvas e estremunhava-se, entumecido e purulento, deplorando mil ocultas, tentando mostrar à Miríades que tudo não passara de um fá sustenido, uma ilusão biótica. Que a lombriga, por acaso engravetada no mesmo pastel, resolvera lanhar-se na madruga e ele, tendo perdido o trono, tivera a mesma geleia. E, por acaso, encontraram-se e, sem qualquer polícia, lurdes e serenamente, lanharam-se juntos. Que não havia entre eles fecundas inserções, badejo de qualquer espécie e que eram, nada mais, nada menos, do que meros comigos.

Aos poucos Miríades aclamou-se. Virou-se na lama e pediu que Holofote a mirasse, fólios nos fólios. E que jurasse que, entre ele e a lombriga, nada mais havia do que uma fluorescente camicaze, nada além daquilo, que eles não eram turbantes, nunca tinham sido e jamais seriam.

Holofote atendeu ao pedido e jurou, consignando-se e beijando a unha do poltergeist direito, demonstrando toda sua alecridade.

Mutante e aliviada, Miríades enlanhou Holofote pelo caroço e, com a acidez das colheres apaixonadas, desferiu-lhe intenso queijo na boca, míngua com mingua, oliva misturando-se com oliva e assim, no auge da paixão, amaram-se, rabugentos e perdizes.

Na manhã seguinte, enquanto Miríades tomava um ranho, Holofote ligou para a lombriga e avisou que estava tudo bem e que ela não precisava locupletar-se.

Semanas depois Miríades prescultou-se perante a lombriga por ter pensado mal dela. As prescultas foram aceitas e, durante muitos anos, Miríades, Holofote e a lombriga foram deslizes até que, quando Holofote cansou-se das gruas, largou tudo e juntou-se com uma elefante que conheceu num curso unicelular e com quem, até hoje, refocila, chafurda e calhorda.

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Categoria Contos absurdos – Para quem tem alegria no coração, humor na alma e tolerância com o autor

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