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15/12/2010 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Paz na terra

Desde que nasci a coisa se repete: datas festivas, natal, ano novo, aniversários. Os mesmo votos, festejos, as mesmas comidas, bebidas, orações, as mesmas promessas, expectativas e as mesmas frustrações.

Enjoei.

Enjoei das datas marcadas para ser bom e cordial. Enjoei das efemérides de calendário, exigindo solidariedade, paz, compreensão, perdão e bondade.

Enjoei dos presentes, amigos secretos, luzinhas coloridas e fogos de artifício.

Enjoei de apostar nas coisas boas do ano que vem, das mensagens coloridas de boas festas, de papais noéis vendedores e do desempenho do comércio, a medida exata de avaliação do Espírito de Natal.

Enjoei da mega sena.

Enjoei dos abraços de ano novo, dos tudo de bom, muita saúde, bastante dinheiro, só felicidades; enjoei da alegria programada, do espocar de rolhas espumosas, dos brindes, dos tapas nas costas e dos beijinhos no rosto.

Enjoei das orações repetidas, dos pedidos de paz, dos cortejos teatrais e reproduções históricas, dos filmes espirituais e das fábricas de anões de brinquedo, das renas e dos trenós.

Enjoei de datas marcadas, dos dias disto, dos dias daquilo, das páscoas, dos dias do perdão, de conselheiros religiosos, das tradições milenares, seculares, anuais e mensais, dos gurus e dos anunciantes do fim do mundo.

Enjoei de dormir, de acordar na mesma cama e na mesma hora. Enjoei de ver a mesma cara no espelho, dos banhos, das barbas feitas ou por fazer. Enjoei dos cortes de cabelo, dos regimes, das academias, dos médicos, das doenças e dos remédios. Enjoei de me preocupar. Enjoei dos heróis, dos gestos nobres, dos solidários e dos cafajestes, da imprensa e seus repórteres, dos programas de TV, de rádio, dos teatros, cinemas, dos livros, dos autores, das mulheres, dos homens, do filé à parmegianna, ovos fritos e refrigerantes.

Enjoei das relações cordiais, dos contatos comerciais, dos juízes de direito e de futebol, da política e seus políticos, dos ambientalistas, das repartições públicas, dos governadores, das platéias lotadas e dos chefes de gabinete.

Enjoei das versões.

Enjoei das datas de vencimento, dos prazos inadiáveis, dos credores e devedores; do sol e da chuva, do frio e do calor, das férias predestinadas, dos engarrafamentos, das estradas, dos pardais, das andorinhas, dos radares, dos buracos, das promessas, das contingências, da petulância e da margarina.

Enjoei das propagandas, dos produtos, dos shoppings; de horas marcadas, da pontualidade, dos atrasos, dos bares, dos restaurantes, dos supositórios e dos licores. Enjoei das críticas contundentes, perfunctórias e superficiais; dos elogios protocolares, das faixas de campeão, das coceiras, das diarréias, dos perfumes e dos papéis higiênicos.

Enjoei dos colírios.

Enjoei das palavras, dos significados, dos silêncios, das presenças, das ausências, da tristeza, das angústias, depressões, intolerâncias e fanatismos. Enjoei dos conselhos, dos alertas, dos avisos, das placas de advertência, das tragédias, das sátiras, das ironias, dos eufemismos. Enjoei da ginástica rítmica, das retrospectivas, dos bailes de debutantes, dos preservativos, das proibições, das permissões, da falta de limites, da liberdade excessiva, da vergonha na cara, da honra maculada e dos clipes de papel.

Enjoei dos sapatos, dos relógios, de géis para o cabelo, dos hidratantes, dos hidrantes, dos desculpem a nossa falha, dos psicopatas, dos neuróticos, das lesões no joelho, do cartão amarelo e da última oportunidade.

Enjoei dos vazamentos de óleo, dos mútuos hipotecários, das ações de despejo, dos profetas, poetas, pastores, reverendos, padres, rabinos, pregadores, filósofos e suplementos culturais.

Enjoei de motores de piscina.

Enjoei das barrigas proeminentes, seios caídos, recém nascidos, velhos senis, da música popular, do prestígio e da fama. Enjoei dos cartões de visita, dos blogues, dos vereadores, das cortinas, das filas, da miséria, da riqueza, da arrogância, da humildade, dos normais, dos alienados, das mulheres que prometem, dos pés com dedos de fora; enjoei de colchões ortopédicos, de remédios para dormir, da sinceridade, das negativas de autoria, das mutretas, dos agrados puxa-saquistas, de pescadores, de minhocas, de vestibulares, de telefones, de sustos, de sujeitos, verbos e predicados.

Enjoei de cólicas, de arco-íris desmaiados, flores efêmeras, vidas ao leo, porres inúteis, samambaias em escadas, portfólios, amor sem sexo, lembranças, esquecimentos, guarda-chuvas, presidentes americanos, norte-americanos e sul-americanos.

Enjoei dos fast-foods, dos conhecedores de vinho, de guardadores de automóvel, de garis varrendo ruas, de cafés da manhã, de perder a vida para ganhar a vida, de ter sempre alguma coisa atrapalhando, dos preconceitos, das mentiras, das ofensas gratuitas, das disputas de beleza e de associações de mutuários.

Enjoei da leptospirose

Enjoei da casa da mãe Joana, de cúmulus-nimbo, frentes frias, frentes quentes, vento sul, milharais, trigais, paisagens bovinas e fotos na internet. Enjoei de festivais de pandorga, de crianças pedindo, de mulheres negando, de jóias nos dedos, de tosse de cachorro, de tomografias, de filmes pornôs, de agulhas no palheiro, de cachimbos intelectuais, de xampus anti-caspas; enjoei das mil maravilhas, de tudo bem, de nem vem que não tem, de cortes de unhas, condomínios fechados, saunas, massagens eróticas, falsos pruridos, cursos de línguas, erudições, sentenças judiciais, últimas palavras e donos da verdade; enjoei de libélulas, polens, frases de efeito, novas revelações, crises na segurança, bolsas de valores, guardadores de entulho e motos na contramão. Enjoei de batucadas em caixas de fósforos, desfiles de carnaval, um dia depois do outro, nunca é tarde para amar e de retas que jamais se encontram.

Enjoei de arroz com leite.

Enjoei dos caminhos da Humanidade, das teorias, das dúvidas, das certezas, das afirmações, dos conteúdos, da lógica, da metafísica, da mais valia e da força operária; enjoei da paz, da guerra, da fofoca, da perfídia, da traição, do conchavo, da regra, da norma, da lei; enjoei de arrotos no elevador, de fedor de sovacos, de garotas de Ipanema, de teses, de conclusões, da origem das palavras, dos cursos de História, dos beijos no jardim, do sereno, do orvalho, da lua cheia a iluminar teu rosto, dos versos levados pelo vento, do que fizeste nestes últimos vinte anos, do Poema Vinte, das árvores de cemitério, dos jacarandás em flor, da comédia humana, da paródia, do protocolo, da metáfora e do perfume de jasmim.

Enjoei de tudo o que não mencionei.

Enjoei de mim.

One Comment

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  1. Boca Raton CPA / Jan 10 2013 17:30

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