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03/12/2010 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – A batalha final

O Dia do Juízo Final chegou tranquilo, nem hecatombe, apocalipse, tragédia ou melodrama.

Deus simplesmente avisou:

– Pessoal, o Juízo Final é hoje! Homens para a esquerda e mulheres para a direita.

A Humanidade ficou perplexa. Era só isso? E a luta entre o Bem e o Mal? E o Demônio? Os Quatro Cavaleiros, punições, lamentos, torturas? Mas como?!!!! Descrentes e beatos, maus e bons, pecadores e justos, todos no mesmo saco?

E Deus disse:

– Meus filhos, esqueçam essas bobagens. EU, pessoalmente, nunca falei nisso. EU só disse que haveria um Juízo Final, o resto foi invenção de vocês. E o Juízo Final é hoje! E vamos começar logo que não tenho o dia inteiro. Homens para a esquerda e mulheres para a direita! Vamos, vamos, se mexendo, quero ver movimento, ação, você aí, minha filha, vá logo para a direita, você meu caro, isso, você mesmo, não, não, estou falando com o manco, isso, vá logo para a esquerda. O Julgamento começa em dois minutos.

Foram-se os homens para a esquerda e as mulheres para a direita. Dois minutos depois – que para a Humanidade representou dois séculos – todos os homens estavam do lado esquerdo de Deus. E as mulheres do lado direito.

Nos dois grupos a surpresa imperava. “Mas como? Não era para ser os bons de um lado e maus do outro?” “E a grande batalha?, as almas penadas, onde é que nós estamos, afinal de contas?, não se pode confiar em mais nada!

Os sacerdotes de todas as religiões demoraram a se conformar. Afinal, tinham passado suas vidas, geração após geração, ameaçando as pessoas com o Juízo Final e a coisa chega assim, light, sem estresse, uma simples divisão sem ética, homens para um lado, mulheres para o outro.

Foi difícil: para os fiéis persistentes, disseram ser um mistério divino; para os revoltados, fecharam as portas.

E Deus disse:

– Ok, pessoal. Vamos começar o Juízo Final. Que entre o Acusador.

E lá veio, do fundo das trevas, Belzebu em pessoa. E assim falou:

– Acuso a Humanidade de usar erroneamente as ferramentas que Deus disponibilizou.

– ÓOOOO!!!!

– Vocês, homens – e virou-se para a esquerda – foram instrumentalizados para um agradável exercício sexual de penetração. Entretanto, ao longo dos tempos, ficaram mais preocupados com o desempenho do que com o prazer. E, por causa dessa preocupação, falharam mil vezes, deixando a parceira na mão ou a ver navios. Vaidade, essa é a acusação maior!!! Mais preocupados do que fazer com o pênis, vocês, Homens, resolveram se preocupar em ‘como’ fazer com o pênis. Deus arquitetou de forma simples: os Homens, com o pênis ereto, divertem-se, brincam e fecundam, pode ser com a mão, pode ser com outros homens, pode ser com mulheres. Porém, vaidosos, criaram conflitos imaginários. O tamanho, o tempo de ereção, ejaculação precoce, falta de ar e grandes barrigas! Sem falar em traumas infantis, complexos de Édipo, ter prepúcio ou cortar o prepúcio e campeonatos de ejaculação à distância. Ó vaidade! Teu nome é Homem.

Calou-se Belzebu, enquanto do lado dos homens, ouviam-se frases consternadas: “nunca brochei”, “isto nunca me aconteceu”, “ a meio mastro”, “Viagra”, “cacetinho, mas funciona”, “não sei do que ele está falando”, “dou cinco sem tirar” e mil outras exclamações defensivas.

Apenas um, justamente o manco a quem Deus se dirigiu pessoalmente, ousou erguer a mão:

– Majestade, Eminência, Vossa Reverendíssima, permite-me um pequeno aparte?

– Fale! – ordenou Belzebu.

Rasgando a multidão interminável dos homens, o holofote divino pousou sobre o manco, colocando-o em evidência, papel que jamais tivera durante a vida.

Percebendo que o momento era solene, o manco deu-se conta, também, que dele dependia o futuro do gênero masculino, na Obra da Criação. O destino dos Homens estava em suas mãos, ou melhor, em sua boca, nas palavras que ele pronunciar.

Intimidado, como sempre, pelo efeito de sua manquidão, cogitou de desistir, esconder-se entre os demais, afastar de si aquela luz brilhante, cegante e assustadora. Dominando o pânico, falou:

– Seu Magnífico, acontece que ELE não conjuminou as vontades.

– Como assim – ripostou Belzebu.

– Ô amizade! As duas coisas têm vontades independentes. Quando a gente quer, ele não quer. Quando ele quer, a gente não quer. Só dá certo quando os dois querem ao mesmo tempo. E isso quase nunca acontece.

– Compreendo – ponderou Belzebu.

– E tem mais, meu Camarada. A gente nunca sabe o que elas querem, como elas querem, quando elas querem. A gente nunca sabe se elas gostaram ou fingiram que gostaram. Ou fingiram que não gostaram. Nada, a gente nunca sabe nada delas.

– Sei, sei, – coçou um dos cornos, Belzebu.

– E por isso a gente vive com medo delas, compreendeu? Que Deus, Nosso Senhor, aí presente, me perdoe, mas houve falha de concepção.

Seguiu-se um burburinho ensurdecedor entre os homens: “é isso aí”, “matou a pau”, “grande manco!, tu é meu e boi não lambe” e outras manifestações de apoio.

Em seguida, Belzebu virou-se para as mulheres:

– Acuso vocês de, mesmo instrumentalizadas por Deus, com espaços, lubrificação e tudo, viverem se queixando do orgasmo, ou porque não têm, ou porque têm demais, ou porque não querem ter, ou por nem saberem o que é isso.

Entre as Mulheres estabeleceu-se a confusão, todas falando ao mesmo tempo, sobre vários assuntos diferentes, o que mais se ouviu foram assertivas como “meu ponto G ninguém descobre”, “sou multi-orgástica”, “ejaculação precoce”, “eles só pensam em sexo”, “nenhum carinho”, “viram de lado e pegam no sono”, “infiéis” e mil outras reclamações.

Os Homens, inconformados, lançaram acusações que foram respondidas pelas Mulheres com outras acusações e a tênue linha de giz que Deus riscara esteve prestes a ser rompida, o conflito carnal iminente.

Um filósofo, mais ao fundo, ponderou: – Será o Juízo Final, afinal, uma batalha entre os sexos?

O dono do bar, ouvindo a reflexão, respondeu:

– Tomara que seja. Vencidos e vencedores virão ao meu bar, lamber as feridas.

A freira, vendo o padre de batina erguida e olhar alucinado correndo em direção a ela gritou:

– Vem, meu paradoxo!

O terceiro sexo dos dois lados subiu a colina, mandou vir peixe frito, lulas, mexilhões ao vinagrete e muitas, muitas garrafas de vinho e ficou apreciando a carnificina.

Então, Deus disse:

– Silêncio!

E todos silenciaram.

E, novamente, Deus disse:

– Vejo que vocês ainda não aprenderam nada. Por isso vou adiar o Juízo Final por uma hora que, no tempo de vocês, representará cinquenta e sete séculos. Se até lá vocês não se entenderem, aí vai ser fogo!

As legiões de homens e mulheres quedaram-se estarrecidas. Aos poucos, cabeça baixa e ar desolado, foram-se misturando e cada um voltou para a casa.

O problema estava lançado, uma hora divina para o Juízo Final, cinquenta e sete séculos humanos para escapar dele. O que fazer? Como fazer? Qual novo Mistério Deus despejava sobre os ombros humanos?

Poucos jantaram naquela noite e a maioria sequer conseguiu dormir.

Pelos meus cálculos, acabamos de entrar no século cinquenta e seis e, até agora, não conseguimos nada!

Ou nossos filhos se aprumam, se dão conta e resolvem o drama ou, como disse Deus, vai ser fogo!

E quero estar longe do barraco.

One Comment

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  1. liana / Dez 5 2010 17:41

    Adorei,me distraem tuas crônicas e aprecio a criatividade desta cabeça.Valeu….bjs da Liana

    Gostar

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