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24/11/2010 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Alienados

Ele digitava as páginas do terceiro volume de seu “Tratado Sobre a Moral Contemporânea”, cujo prazo para entrega à editora esgotava em vinte e três dias.

Na copa, Clarinha e as crianças assistiam televisão em silêncio.

Envolvido com o texto, produto de anos de pesquisa e meditação, Haroldo atingia o cerne da demonstração da tese, a tese que ele elaborara e que estava revolucionando o pensamento filosófico contemporâneo. Já recusara dezenas de convites para conferências em palestras nos mais conceituados institutos, nas mais importantes universidades do planeta, alegando que só iria se manifestar publicamente após a conclusão da obra, isto é, após o lançamento editorial do terceiro volume.

– Haroldo – gritou Clarinha – vai começar o último capítulo.

Haroldo levou um susto, tamanha era sua concentração. Em seguida retomou o trabalho, sem dar importância ao chamado da mulher.

Ela abriu a porta do gabinete de trabalho dele:

– Vai começar o último capítulo da novela, Haroldo. Você não é capaz de passar alguns momentos com a sua família? Fica encerrado, só trabalha, não tem alguns minutos para conviver? É o último capítulo, coisas importantíssimas vão acontecer hoje.

– Clarinha, eu não gosto de novela! Quantas vezes vou ter que repetir isso? Eu não gosto de novela, não tenho saco, não tenho paciência para ficar na frente da televisão vendo sempre as mesmas coisas, armadas para chegar no final que todo mundo já sabe qual é. Você acha que ficar mudo assistindo aquela imbecilidade é conviver? Pra mim não é. Não quero assistir novela, nem o primeiro nem nenhum e muito menos o último capítulo!

– Grosso! Você é um grosso! Precisa gritar desse jeito?

– Eu não…

– Gritou sim! Gritou tanto que o edifício inteiro ouviu seus gritos! Eu só te convidei, não precisa fazer escândalo.

– Você sempre me convida, Clarinha. Você quer me obrigar a gostar dessa bobagem? Não vê que estou concluindo a obra da minha vida…

– Obra da minha vida… obra da minha vida… Como se isso fosse a coisa mais importante do mundo…

– Pois pra mim é! Pior é ficar olhando novela, vivendo vidas alheias que vão sendo construídas ao acaso, dependendo da audiência. E sempre a mesma coisa! Aposto que essa novela tem vários grupos de pessoas que se encontram todos os dias, famílias ricas e esnobes, famílias simples e de classe média. Aposto que tem um ponto de ligação entre esses grupos que mistura a trama. Aposto que tem alguém que todo o mundo pensa que é bonzinho e na verdade é um vilão da pior qualidade, capaz de armar estratégias mirabolantes só para arruinar alguém ou roubar o amor de alguém. E que no último capítulo vai ser tudo descoberto, os casais vão se acertar, muitos perdões, os bandidos serão presos, as mensagens serão dadas. Aposto que semana que vem começa outra novela, essa sim é que vai ser a boa, e todo o mundo esquece da novela anterior.

– Como você é! Como você é! Alienado! O Brasil inteiro só fala na novela, menos a sua majestade aqui, que está acima dos mortais.

– Mãe, já vai começar! – gritou um dos filhos.

– Vai Clarinha, me deixa trabalhar. E vê se não me convida mais para assistir novela, tá?

– Alienado, ignorante – foi resmungando Clarinha, em direção à copa.

– O pai não vem, mãe?

– Não, meu filho. Você sabe como ele é desligado de tudo. Está lá querendo salvar o mundo em vez de saber o que vai acontecer com a Rita e o Constâncio. Fazer o que, né?

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