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20/05/2018 / Paulo Wainberg

OSMAR SAI DO LIMBO

Osmar, você sabe, é meu correspondente que não responde nem corresponde. Tem cerca de sessenta anos, cabelos grisalhos e ralos, barriga em evidência e trocou a cerveja pelo uísque porque, segundo ele, cerveja incha.

Apesar da inúmeras cartas que lhe enviei, jamais respondeu e, se respondesse,  seria a prova cabal de minha esquizofrenia porquanto ele não passa de um personagem que inventei.

Devido ao seu altaneiro e insistente silêncio, resolvi colocá-lo no limbo, mas hoje vou tirá-lo de lá porque a situação ficou insustentável, assim como está não dá, não dá mais, francamente!

E chega de introitos, vou logo à carta de hoje:

Prezado Osmar. Espero encontrá-lo em perfeita saúde e todos os seus.

Desejo convictamente que você me responda ou irei colocá-lo no limbo outra vez e, desta, para sempre.

A questão que me aflige e para a qual imploro sua ajuda é a seguinte: Quando os políticos de todos os níveis falam a palavra “povo”, a quem estão eles exatamente se referindo?

Por acaso dirigem-se à uma multidão disforme, sem cara nem corôa? Ou à uma classe social branca e de olho azul? Ou aos miseráveis dos canteiros do país, onde um pedaço de casca de pão representa a sobrevivência do dia?

Quando eles falam que “o povo” deseja isto ou aquilo ou aqueloutro é porque são dotados de poderes ultrassecretos, supra sensoriais e até mesmo exotéricos para revelar tantos sentimentos? Ou estão disfarçando – para não dizer mentindo – para conquistar simpatia e, no jargão do populacho, angariar votos?

Será que o “povo” quer o fim do homossexualismo e o início de uma ditadura de direita? Ou será que o “povo” deseja trocar seu coração pelo de um outro, um único outro, que se imagina ser uma ideia e não um ser humano?

Para mim – e digo isto mandando a modéstia às favas, como diz o ministro – “Povo” é o conjunto de pessoas que habita um mesmo território e formam, assim, uma nação. E deseja individualmente apenas viver a respectiva vida sem ninguém a lhes dizer o que é bom ou ruim, o que é certo ou errado.

Posso estar equivocado, mas quem jamais se equivocou que jogue a primeira lâmina de barbear vencida no lixo.

Concluo, estimado Osmar, com a renovada esperança de receber sua resposta esclarecedora para que, graças a ela, eu finalmente possa saber se sou ou não sou membro do “povo” dos políticos e num e noutro caso, decidir se eles sabem mesmo o que eu realmente desejo.

Com o abraço de sempre, eternamente seu

Haroldo.

 

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18/05/2018 / Paulo Wainberg

CHUVA

Chove em Porto Alegre, esta cidade que já foi minha e que hoje é de ninguém.

Em dias assim, caminhar é bom, sentindo os sapatos umedecendo nas águas do chão (que com certeza lavaram o sangue de alguém) e os guarda-chuvas flutuantes cobrindo rostos e igualando todos, uma terra de guarda-chuvas cobrindo seres que pensam em uma tarde na cama, com vinho e com a pessoa amada ao lado, tudo menos estar ali, no ponto de ônibus que chegará esparramando água e condensando gente.

Gosto de ver os prédios lamurientos e as árvores lacrimosas e é quando penso que o céu está chorando, vertendo suas lágrimas de pesar sobre a Natureza, para que Ela saiba que há quem a pranteie, que há quem a banhe e que Ela não está sozinha neste Universo.

Mas eu me sinto só e, em dias assim, gosto da minha companhia, gosto de estar comigo mesmo, alegre com o dia que parece triste e que, na verdade, brilha a não mais poder.

Quando a chuva cai, não há mais tempo nem espaço, nada a perder e, a ganhar, a água celestial que lava meu rosto, me torna belo, forte e eterno.

21/12/2017 / Paulo Wainberg

Gilmar

O Ministro Gilmar Mendes, seja por birra seja pelo beicinho, está fazendo no Supremo uma operação padrão: Cumprindo literalmente o que determina a lei e a constituição.
Podemos não gostar, pois nosso desejo é ver todos todos os corruptos presos. Mas a lei é para todos e, até agora, as decisões dele foram baseadas na lei.

30/10/2017 / Paulo Wainberg

Teste

teste apenas um Teste

30/08/2017 / Paulo Wainberg

Silogismo introspectivo

Eu só me sinto bem quando estou bêbado.
Eu nunca estou bêbado.
Logo, eu nunca me sinto bem.

24/08/2017 / Paulo Wainberg

O que serei

O que serei? Uma bolha no tempo? Uma rolha na garrafa? Uma folha no jardim? Perguntas, perguntas que não tem fim, respostas que fogem de mim.
Mas agora já sei: Uma bolha não sou, talvez uma rolha. Uma rolha não sou, talvez uma folha. Uma folha não sou, talvez uma escolha que não passeia pelo tempo, que não tampa uma garrafa, que não conhece um jardim.
E, assim, o que serei? Provavelmente um sem reino Rei.

21/08/2017 / Paulo Wainberg

POEMA DE PÉ QUEBRADO

Foi numa pedra que ele tropeçou
e seu tornozelo logo inchou.
A ambulância para o hospital o levou
e a Ressonância logo diagnosticou:
Foi mal, o tornozelo quebrou.

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