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21/02/2017 / Paulo Wainberg

Incógnita

Sempre acreditei que o que era bom para mim aconteceria. O que nunca consegui foi decidir o que é bom para mim.

19/02/2017 / Paulo Wainberg

Fim do amor

Quando o amor desaparece, duas coisas acontecem: Um carro cruza o sinal vermelho e uma goiaba podre cai do galho.

Quando  o amor termina, várias coisas acontecem: O papa pede paz, a plateia pede bis, o menino escapa por um triz, a professora deixa cair o giz, o político foi corrupto porque quis, o povo quase não tem raiz e todos fodem o país.

Quando o amor acaba dez mil coisas acontecem: O ônibus está lotado, alguém senta no seu lugar marcado, o filme foi mal filmado, o bife vem mal-passado, alguém falta ao encontro marcado, o prefeito está desolado, um prédio desmoronado, um luar enluarado.

Quando o amor fenece, sei lá quantas coisas acontecem: O sorvete vem derretido, você anda mal vestido, quase nada faz sentido, teu pé está fedido, uma puta dor de ouvido, o jardim está florido, você reclama e é agredido, no governo só tem bandido, são onze horas e seu filho ainda está dormindo.

Quando o amor chega ao fim, coisas acontecem enfim: alguém compra um carro usado, duas bombas explodem no shopping center, duzentos morrem no desastre de trem, os oceanos sobem de nível, o time perde o campeonato, milhares ficam de luto, o motorista fica puto, um rock em alto volume, a maçã podre infecciona as irmãs, terminou o gaz, faltou luz em cinco  bairros, o calor é de rachar, o frio é de matar, centenas dizem sim, centenas dizem não, a policia enfrenta a multidão, vândalos pedem bis, o terrorista escapa por um triz, a criança não fez o que quis, o político fode o país, o papa ora pela paz e a professora recupera o  giz.

Quando o amor desaparece é só isto que acontece e o resto, não interessa.

24/01/2017 / Paulo Wainberg

Confúcio

Pergunta jamais feita por CONFÚCIO: Afinal de contas, meus filhos, para que serve o prepúcio?

18/01/2017 / Paulo Wainberg

Carinho

CARINHO. Começa pelos dedos, sobe pelos braços, continua na boca e se completa no ninho.

15/12/2016 / Paulo Wainberg

Navio Dezembreiro

Estamos em pleno Dezembro.

O vento e o mar, às vezes calmos, às vezes furiosos, carregam nossas naus, nossas vidas, rumo aos desconhecidos futuros da existência.

Bandeiras evocativas tremulam nos mastros, enfeitando velas enfumaçadas pelas neblinas e pelos próprios eflúvios, enquanto vemos, bem longe ao fundo, o porto que acabamos de abandonar e mostram, à frente, novos horizontes, novas conquistas, novas esperanças.

Mas…. Como?, qual magia dos destinos está adulterando nossa rota, as bússolas girando como agulhas gigantescas nas mãos de um psiquiatra, perfurando nossa pele, nossas veias, nossos olhos?

Ó senhor deus dos desgraçados!!! Como permitis que assim vagabundos, o novos horizontes voltem-se para trás, anunciando velhos portos, velhas origens, velhas falésias e mares arrendondados cujas frestas, escaninhos e escárnios, estamos cansados de conhecer?

Proeiros da nau maldita, voltamos os olhos para nosso Capitão, aquele que jurou nos livrar do mal eterno e que, agora, nos conduz às origens, punindo nossas mazelas como se já, há tanto e tanto não fôramos punidos.

Senhor deus dos infortúnios, dize-nos como alterar a rota, como repreender o comandante que nos conduz às antigas tragédias do mal vestir, do mal comer e do destino inócuo, sem amor e sem paixão, aquele destino insensato que para nós determinastes como a erva daninha que corrói o tronco de nossas árvores mais robustas!

Estamos em pleno Dezembro, quando luzes alvissareiras anunciam o melhor futuro, o  Natal dos presentes e das comilanças, das especiarias radicais e dos bonecos exóticos, o Natal das crianças enfeitiçadas que vislumbram mágicas renas voadoras e a figura bonachona de um ser inexistente, um gordo barbudo vestido de Coca-Cola carregando um saco de presentes que jamais lhes serão dados.

Estamos em pleno Dezembro e o vento e os mares às vezes são calmos, às vezes são furiosos, a conduzir nossa nau, nossas vidas, para futuros melindrosos que pouco diferem de nossos passados tristes, lacrimosos e perdulários.

Nossa proa aponta para o novo horizonte que, por magia insidiosa do destino, nos oferece os mesmos antigo portos onde cansamos de aportar, onde cansamos de apoderar, bebendo até cair, nas ruas escuras do cais.

Senhor deus dos iludidos, como podeis nos enganar com luzes coloridas dos fogos de artifício, garantindo que amanhã será tudo melhor, que basta esperar um minuto e o mundo será feliz, alegre, em paz e benevolência?

Sim! Estamos em pleno Dezembro, os ventos e os mares correm tranquilos e tortuosos e nós, os proeiros de nossa grande nau olhamos, patéticos e esbugalhados, parati o grande capitão que, olhar posto nas ondas longínquas que virão, suas mãos fortes comandando o grande timão do destino, apenas nos grita ordens para mudar a posição das velas, desenrolar as cordas da embarcação e manter o prumo, nos conduz ao que já sabemos, nos leva de volta ao já vivido e nos indica, com um dedo erguido para os céus tenebrosos, que nossa única esperança, a única que resta, é que não naufragaremos, desde que permaneçamos os mesmos, os  mesmos que somos desde o dia em que nascemos.

E se um de nós ousar, se um de nós erguer os olhos em desafio, todos pagarão o preço da desobediência e, ao voltarmos para o antigo porto, como é inevitável, todos sofrerão as punições previstas, nos velhos e nos novos Livros.

 

14/12/2016 / Paulo Wainberg

Conversando com Deus

Podem me acusar de herege, apóstata, iconoclasta, hedonista e pé-de-valsa, mas eu converso com Deus sim senhor, apesar de não acreditar nele.

Nosso último bate-papo ocorreu há mais de trinta anos, quando sugeri a ele que acabasse com as segundas-feiras e condenasse ao inferno garçons que servissem chope quente. Ele não aceitou minhas sugestões e olha só no que deu…

Foi uma conversa de verão.

Semana passada conversei com ele de novo:

– Senhor, posso ter um minutinho da sua atenção?

– Não tenho um minutinho, respondeu ele, mas disponho de toda a eternidade. O que você deseja, meu filho?

– Quero falar um pouco do Brasil.

– De quem?

– Do Brasil, aquele país cujo povo gosta de dizer que é de onde o senhor é.

– Eu????

– É! A gente gosta de falar que o senhor é brasileiro?

– Você está de brincadeira? Brasil… Brasil… Deixe ver… – Pedro, você já ouviu falar em Brasil?

– Claro que sim, senhor. Tem até uma gozação: Deus é brasileiro e o Papa é argentino.

– Mas de onde saiu isso, Pedro?

– Sei lá, acho que é coisa do futebol, rivalidade eterna, essas coisas e tal…

– Senhor, intervi, Brasil é um país da América do Sul que tem mania de grandeza, é comandado por cinco famílias e dezoito empreiteiras e onde o povo se garante desde que garantam o dele.

– Diga logo o quer, meu filho, sua eternidade está acabando.

Foi aí que travei. Congelei. Paralisei. O que podia pedir a Deus que estivesse ao alcance dele ou que ele desejasse fazer? Fora Temer? Fora Lula? Saúde para todos? Educação para as criancinhas? Igualdade social? Fim da violência? Investigação profunda no Poder Judiciário? Prisão para políticos corruptos e corruptores institucionais? Fim da Lavajato? Eleições gerais já, inclusive para presidente? Mudança do regime político? Volta do Internacional para a série A? Fim dos privilégios dos Senadores, Deputados e Ministros? Tantas coisas, tantas coisas…

Refleti um pouco e desalentado, refiz o pedido de há mais de trinta anos: Fim das segundas-feiras e envio imediato ao inferno de garçons que servissem chope quente no verão.

E ele me respondeu como da outra vez:

– Existe um Plano, meu filho, e o Plano é o Plano. Até a próxima.

08/12/2016 / Paulo Wainberg

As mulheres e os homens.

Em noventa e nove por cento dos casos, quando um homem diz: Você é a mulher da minha vida, ele está falando sério e tal mulher será mesmo a mulher da vida dele até o final da vida dele.

Em noventa e nove por cento dos casos, quando uma mulher diz: Você é o homem da minha vida, ela está falando apenas do momento, daquele momento de paixão e idealização. Logo em seguida, passado o desvelo e o devaneio, aquele homem será posto na condição de absoluto esquecimento e – por que não? – até de desprezo, essa mulher sairá em busca de um outro homem da vida dela e, caso não encontre, submeter-se-á à rotina de valores menores, vivendo conformada e usufruindo pequenos e grandes prazeres que que jamais a deixarão satisfeita.

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