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15/12/2016 / Paulo Wainberg

Navio Dezembreiro

Estamos em pleno Dezembro.

O vento e o mar, às vezes calmos, às vezes furiosos, carregam nossas naus, nossas vidas, rumo aos desconhecidos futuros da existência.

Bandeiras evocativas tremulam nos mastros, enfeitando velas enfumaçadas pelas neblinas e pelos próprios eflúvios, enquanto vemos, bem longe ao fundo, o porto que acabamos de abandonar e mostram, à frente, novos horizontes, novas conquistas, novas esperanças.

Mas…. Como?, qual magia dos destinos está adulterando nossa rota, as bússolas girando como agulhas gigantescas nas mãos de um psiquiatra, perfurando nossa pele, nossas veias, nossos olhos?

Ó senhor deus dos desgraçados!!! Como permitis que assim vagabundos, o novos horizontes voltem-se para trás, anunciando velhos portos, velhas origens, velhas falésias e mares arrendondados cujas frestas, escaninhos e escárnios, estamos cansados de conhecer?

Proeiros da nau maldita, voltamos os olhos para nosso Capitão, aquele que jurou nos livrar do mal eterno e que, agora, nos conduz às origens, punindo nossas mazelas como se já, há tanto e tanto não fôramos punidos.

Senhor deus dos infortúnios, dize-nos como alterar a rota, como repreender o comandante que nos conduz às antigas tragédias do mal vestir, do mal comer e do destino inócuo, sem amor e sem paixão, aquele destino insensato que para nós determinastes como a erva daninha que corrói o tronco de nossas árvores mais robustas!

Estamos em pleno Dezembro, quando luzes alvissareiras anunciam o melhor futuro, o  Natal dos presentes e das comilanças, das especiarias radicais e dos bonecos exóticos, o Natal das crianças enfeitiçadas que vislumbram mágicas renas voadoras e a figura bonachona de um ser inexistente, um gordo barbudo vestido de Coca-Cola carregando um saco de presentes que jamais lhes serão dados.

Estamos em pleno Dezembro e o vento e os mares às vezes são calmos, às vezes são furiosos, a conduzir nossa nau, nossas vidas, para futuros melindrosos que pouco diferem de nossos passados tristes, lacrimosos e perdulários.

Nossa proa aponta para o novo horizonte que, por magia insidiosa do destino, nos oferece os mesmos antigo portos onde cansamos de aportar, onde cansamos de apoderar, bebendo até cair, nas ruas escuras do cais.

Senhor deus dos iludidos, como podeis nos enganar com luzes coloridas dos fogos de artifício, garantindo que amanhã será tudo melhor, que basta esperar um minuto e o mundo será feliz, alegre, em paz e benevolência?

Sim! Estamos em pleno Dezembro, os ventos e os mares correm tranquilos e tortuosos e nós, os proeiros de nossa grande nau olhamos, patéticos e esbugalhados, parati o grande capitão que, olhar posto nas ondas longínquas que virão, suas mãos fortes comandando o grande timão do destino, apenas nos grita ordens para mudar a posição das velas, desenrolar as cordas da embarcação e manter o prumo, nos conduz ao que já sabemos, nos leva de volta ao já vivido e nos indica, com um dedo erguido para os céus tenebrosos, que nossa única esperança, a única que resta, é que não naufragaremos, desde que permaneçamos os mesmos, os  mesmos que somos desde o dia em que nascemos.

E se um de nós ousar, se um de nós erguer os olhos em desafio, todos pagarão o preço da desobediência e, ao voltarmos para o antigo porto, como é inevitável, todos sofrerão as punições previstas, nos velhos e nos novos Livros.

 

14/12/2016 / Paulo Wainberg

Conversando com Deus

Podem me acusar de herege, apóstata, iconoclasta, hedonista e pé-de-valsa, mas eu converso com Deus sim senhor, apesar de não acreditar nele.

Nosso último bate-papo ocorreu há mais de trinta anos, quando sugeri a ele que acabasse com as segundas-feiras e condenasse ao inferno garçons que servissem chope quente. Ele não aceitou minhas sugestões e olha só no que deu…

Foi uma conversa de verão.

Semana passada conversei com ele de novo:

– Senhor, posso ter um minutinho da sua atenção?

– Não tenho um minutinho, respondeu ele, mas disponho de toda a eternidade. O que você deseja, meu filho?

– Quero falar um pouco do Brasil.

– De quem?

– Do Brasil, aquele país cujo povo gosta de dizer que é de onde o senhor é.

– Eu????

– É! A gente gosta de falar que o senhor é brasileiro?

– Você está de brincadeira? Brasil… Brasil… Deixe ver… – Pedro, você já ouviu falar em Brasil?

– Claro que sim, senhor. Tem até uma gozação: Deus é brasileiro e o Papa é argentino.

– Mas de onde saiu isso, Pedro?

– Sei lá, acho que é coisa do futebol, rivalidade eterna, essas coisas e tal…

– Senhor, intervi, Brasil é um país da América do Sul que tem mania de grandeza, é comandado por cinco famílias e dezoito empreiteiras e onde o povo se garante desde que garantam o dele.

– Diga logo o quer, meu filho, sua eternidade está acabando.

Foi aí que travei. Congelei. Paralisei. O que podia pedir a Deus que estivesse ao alcance dele ou que ele desejasse fazer? Fora Temer? Fora Lula? Saúde para todos? Educação para as criancinhas? Igualdade social? Fim da violência? Investigação profunda no Poder Judiciário? Prisão para políticos corruptos e corruptores institucionais? Fim da Lavajato? Eleições gerais já, inclusive para presidente? Mudança do regime político? Volta do Internacional para a série A? Fim dos privilégios dos Senadores, Deputados e Ministros? Tantas coisas, tantas coisas…

Refleti um pouco e desalentado, refiz o pedido de há mais de trinta anos: Fim das segundas-feiras e envio imediato ao inferno de garçons que servissem chope quente no verão.

E ele me respondeu como da outra vez:

– Existe um Plano, meu filho, e o Plano é o Plano. Até a próxima.

08/12/2016 / Paulo Wainberg

As mulheres e os homens.

Em noventa e nove por cento dos casos, quando um homem diz: Você é a mulher da minha vida, ele está falando sério e tal mulher será mesmo a mulher da vida dele até o final da vida dele.

Em noventa e nove por cento dos casos, quando uma mulher diz: Você é o homem da minha vida, ela está falando apenas do momento, daquele momento de paixão e idealização. Logo em seguida, passado o desvelo e o devaneio, aquele homem será posto na condição de absoluto esquecimento e – por que não? – até de desprezo, essa mulher sairá em busca de um outro homem da vida dela e, caso não encontre, submeter-se-á à rotina de valores menores, vivendo conformada e usufruindo pequenos e grandes prazeres que que jamais a deixarão satisfeita.

07/12/2016 / Paulo Wainberg

Saída

Quando uma mulher te diz, especialmente se for a mulher da tua vida, que não ficaria com você nem se fosse o último sobre a terra, só te resta uma opção: ser o penúltimo homem sobre a terra.

05/12/2016 / Paulo Wainberg

Símbolos da paixão

– Falar em amor numa hora dessas – bradou o poeta etílico

Como se fosse um vampiro hemofílico.

– Quando meu amor da vida inteira declara – diz ele, tomando mais um trago – Que fui de tudo na sua vida, principalmente um estrago!

– E eu – segue o poeta empinando a cachaça – Que amargurei meus dias, minhas noites e minhas fantasias esperando um sinal, um anúncio, um olhar de trapaça que revelasse, mesmo que sorrateira, que a recíproca era verdadeira, vi meu sonho, minha quimera, transformados em burlesca guerra, quando ela me disse, impiedosa  fera, que comigo não, nem que eu fosse o último homem sobre a Terra.

Dor maior não pode existir, digo eu, biógrafo do poeta, do que assistir ao fim da razão, o poeta no chão, bêbado na sarjeta,  que a beleza da paixão tão assim plena de graça, transformar-se em abjeta condição, em suicídio em vida, em desgraça.

02/12/2016 / Paulo Wainberg

Biografia

Houve um tempo em que fui – declamou o poeta empilastrado de cachaça. E nesse tempo eu fui grande, fui imenso, fui tudo, fui deus, rei, juiz, tijoleiro e motorista de caminhão. E tudo o que fui era bom, era extasiante, era o máximo.

Depois o tempo me transformou – continuou o poeta, mais alçado na cachaça – ou eu me transformei, e tudo o que era bom ficou perdido no limbo da perda, da desilusão e da falsa eternidade em que acreditei, que nada mudaria e que tudo o que eu era seria para sempre.

Hoje nada sou – seguiu o poeta em sua ladainha, os olhos vermelhos e a língua enrolada pela cachaça – tudo perdi e me transformei num ser disforme, vivendo de migalhas de esperanças, em busca de sinais dos que já me esqueceram, curtindo cada frustração, cada mesmice, cada confirmação das perdas totais, enlouquecido por lembranças em noites solitárias retorcidas e embrenhadas em lençóis amarrotados e sujos, desejando e implorando para que, o que fui, pudesse voltar a ser.

É por isto que aqui estou – vociferou o poeta, com sua voz bêbada e seus poros transcendo à cachaça -para declarar que fui, não sou e nunca mais serei, pois nada mais quero ser, porque o que poderia ser me foi tirado mesmo que eu fosse o último homem vivo na Terra e que me resta o olvido, o silêncio da eternidade, o fim do amor e da paixão, o desalento e a morte pornográfica, a morte de quem morre de desejo, degradada e degradante, a morte insensível e cruel, registrada numa lápide de memórias inúteis como as de uma Hidra de sete cabeças, cada uma delas mais perversa do que a outra.

 

19/11/2016 / Paulo Wainberg

Pauliana de sábado

Comecei este sábado da pior maneira possível: Acordando.

E, pior ainda, às seis.

O que fazer as seis horas de uma manhã de sábado que não seja chato (caminhar), que não seja insosso (ligar a TV), que não seja inútil (tentar dormir novamente)?

Optei por fazer a única coisa que parecia ter sentido, isto é, nada.

Fiquei olhando para o teto, para o lustre, para a parede da direita onde tem uma janela fechada, cocei o calcanhar do pé direito e, quando me dei conta, estava me imaginando numa cela de prisão, posto lá por ordem de um juiz  em razão de vários crimes (ou apenas um) cometidos.

Pensar nisso foi me inundando de uma incrível sensação de paz e tranquilidade. Que maravilha estar preso, não ter compromisso, não ser obrigado a sair de casa, não precisar falar com ninguém, estar simplesmente em repouso, em estado de nada!

Um movimento do lado esquerdo arrancou-me o devaneio, mas nada vi, talvez um inseto, uma sombra fugidia de cortina, uma alucinação inócua ou, provavelmente, algum fantasma em busca de sua alma gêmea.

Os sons da manhã clareando entraram, sorrateiros, quarto a dentro. Pios, farfalhares de folhas, a palma envelhecida de uma palmeira caindo sobre a poça restante da chuva anterior.

Calculei minhas opções: Ir ao banheiro era uma, quase imperiosa, tudo bem, mas e depois? Pegar o jornal, tomar um café, caminhar de um lado para o outro pela casa, telefonar para alguém, ir para a facebook, jogar freecel no computador, ler, sim, ler era uma boa alternativa.

Qual um imponente general (Harrison Ford, por exemplo) berrando: Fire!, entrei na minha biblioteca e admirei, não sem certo orgulho, minhas estantes repletas de livros, minuciosamente dispostos na mais absoluta desordem e iniciei minha ginástica literária, consistente em torcer o pescoço para a esquerda e para a direita, tentando ler as lombadas e escolher um título que naquele horário já beirando às sete, me dissesse a que veio, me despertasse um mínimo de tesão intelectual (eis que a outra, por falta de objeto, estava totalmente adormecida) e assim, dedo em riste e prestes à um torcicolo, desisti, meu espírito não estava para leituras.

Remédios. Sim, bem que podia tomar meus remédios, resolvendo esse problema diário de uma vez por todas. Mas, que diabos, hoje é sábado, até as preveníveis insuficiências e possíveis doenças tem direito a um dia de descanso, os remédios vão esperar, serão tomados mais tarde ou simplesmente deixados para domingo.

Abostalhado no sofá da sala, vendo os segundos, cada um deles, passar, maldisse a má sorte de ter despertado assim tão cedo. Lamentei tudo. Comecei pelo dia em que nasci, por que não me deixaram nas profundezas intestinas de mamãe, por que tinha que vencer aquela corrida, por que não me deram uma bicicleta quando fiz seis anos, por que a bola que, tanto incomodei, me deram, furou em dois dias, por que, por que, por que?

No relógio são oito horas.

Bem, agora não há desculpas, é o meu horário normal de acordar. Mesmo sendo sábado, nada mais podia ser adiado.

Com um suspiro resignado, levantei do sofá, caminhei até o armário, abri a garrafa e tomei o primeiro gole.

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